Lendas de Portugal

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Lendas de Portugal

Mensagem por Lusitana Cultura em Sex Fev 06, 2015 6:28 am

Originalmente, a palavra designava histórias de santos, mas o sentido estendeu-se para significar uma história ou tradição oriunda de tempos imemoriais e popularmente aceite como verdade. É aplicada hodiernamente a histórias fantasiosas ligadas a pessoas verdadeiras, acontecimentos ou lugares. Lenda e mito são relacionados, mas a lenda tem menos a ver com o sobrenatural. A lenda frequentemente diz respeito a personagens famosas, populares, revolucionárias, santas, que vivem na imaginação popular.

A lenda é sustentada oralmente, cantada em versos tradicionais ou em baladas, e posteriormente escrita. A literatura de cordel inclui muitas histórias lendárias em torno de figuras populares ou da vida política. Na lenda, facto e fantasia são interligados. Nos folclores português e brasileiro, a lenda ocupa lugar de destaque.

Trás-os-Montes e Alto Douro

Lendas de Trás-os-Montes e Alto Douro«(...) as Lendas têm lugar e data, e servem para descrever acontecimentos e exaltar heróis, imaginários, ou reais, mas romanceados;(...)

Não há terra que não tenha uma ou mais lendas e muitas histórias para contar.


As Lendas conhecidas podem agrupar-se em quatro classes:

- As Lendas de carácter histórico (...).
- As Lendas etiológicas (...).
- As Lendas de carácter religioso (...).
- As Lendas mouriscas (...).» (1)

» Senhora do Picão
(Miranda do Douro)
» Menino Jesus da Cartolinha
(Miranda do Douro)
» Senhora do Monte
(Miranda do Douro)
» O Caso da Lagoa (Palaçoulo)
(Miranda do Douro)
» Lenda do Naso
(Miranda do Douro)
» A Lenda da Moura
(Miranda do Douro)
» A Povoação de Agarez
(Vila Real)
» Senhora de Balsamão
(Macedo de Cavaleiros)
» O Calhau do Encanto
(Vila Real)

(1) In LITERATURA POPULAR DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes)



Senhora do Picão

No sítio do Picão situado a quatro quilómetros da Póvoa e a dois do Santuário do Naso, nos finais do séc. XIX início do séc. XX, na aldeia da Póvoa, concelho de Miranda do Douro, algo de milagroso aconteceu a uma menina de nome Mariana dos Ramos João.

Ainda Mariana estava ainda no ventre da mãe, já poisava uma luz em cima de uma arca o que deixava a mãe preocupada com o que iria ser daquela criança. Segundo relato de familiares, Nossa Senhora aparecia em casa, em qualquer parte onde Mariana estivesse.
Tinha então poucos meses quando o fenómeno se começou a registar, o que deixava a sua mãe perplexa. A bébé aparecia limpa e penteada. Havia também uma luz que se acendia, no período de Abril a Maio, fenómeno que se registou durante 16 anos.

Só no ano de 1903, já Mariana tinha sete anos, conta o que lhe acontecia a um irmão, afirmando ver Nossa Senhora, situação nunca presenciada por mais ninguém, mas que tornou o lugar num local de culto, especialmente para os espanhóis da zona de Castela e Leão, que ali se deslocavam em grande número, contribuindo para a construção da capela, da casa dos peregrinos e do estábulo para os animais. Também a água e a terra do local era procurada porque, dizia-se, terem poderes curativos.

Várias foram as razões para o desaparecimento do Santuário. No entanto o Picão acabou em ruínas de onde foram retiradas nos anos 50, pedras para erguer duas capelas, no Santuário Mariano de Nossa Senhora do Naso, e a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição que se encontra no interior da Capela do Naso.

Relação com as aparições de Fátima

Sete anos antes de os três pastorinhos levarem multidões à Cova de Iria, em Fátima, uma jovem transmontana de 14 anos também pastora, afirmava ter visto Nossa Senhora, e levou também ao Picão romarias de portugueses e espanhóis que procuravam presenciar o que apelidavam de milagre. Em todos os locais em que a jovem disse ter visto Nossa Senhora, foram erguidas pedras com o número da aparição que ainda hoje se podem encontrar na zona.

Mariana João faleceu em 1972, com 76 anos de idade, e o desgosto de ver desmoronar o seu santuário de fé, afirmando que a Senhora que via em Fátima, esteve antes aqui na Terra de Miranda.



Menino Jesus da Cartolinha

A lenda mais conhecida, a do menino Jesus da Cartolinha, conta que Miranda se encontrava cercada de tropas espanholas, estando estas na eminência de tomarem as muralhas, muito cobiçadas pela sua importância estratégica, quando surgiu, não se sabe de onde, um jovem que ia gritando pelas ruas, incitando à revolta.

A população já se encontrava descrente e sem forças não podendo oferecer resistência por muito mais tempo (pois o cerco mantinha-se há vários meses), sendo a fome e a sede os principais inimigos. Como por milagre as forças renasceram e após a dura batalha, os invasores foram expulsos.
A praça de guerra foi salva! Procuraram o menino-prodígio! Queriam homenageá-lo, honrá-lo, mas não o encontraram. Como aparecera assim desaparecera! “Foi um milagre de Jesus”- do Menino Jesus da Cartolinha - disse o povo.

Outra lenda conta que havia na cidade um jovem oficial, noivo de uma senhora da Corte, com a data de casamento marcada.

Na defesa da praça (cercada de espanhóis) esse jovem, que teria uma brilhante carreira militar, morre. A noiva fez então a promessa de lhe honrar a memória, oferecendo ao Menino Jesus a farda correspondente à que o seu noivo iria vestir depois da guerra.

Os mirandeses têm tanta fé no seu “ Menino” que ainda hoje exclamam em momentos de grande aflição “ Ai, Meu Menino!, Ai Meu Menino!”.

A figura do Menino Jesus da Cartolinha está na Sé Catedral de Miranda, em altar próprio.



Senhora do Monte

Distando pouco mais de uma légua da Cidade de Miranda do Douro, vê-se um lugar que se denomina de Duas Igrejas. Neste lugar existe um grande e magnifico templo, dedicado à Rainha dos Anjos, e nela é tida grande devoção a quem intitularam, Santa Maria do Monte ou Nossa Senhora do Monte: imagem de grande devoção por toda aquela terra.

É tradição, que esta Sagrada Imagem aparecera naquele mesmo sítio a uma pastorinha muda de poucos anos, à qual deu fala, para que anunciasse ao povo que “queria fazer aqui Sua morada e lhe fizessem uma Igreja, onde havia de ir muita gente, através dos tempos. Dizem mais, que o seu aparecimento foi sobre uma giesta ou escova. Este foi o trono glorioso, em que foi vista a Rainha dos Anjos Maria Santíssima.

Participou a pastorinha o favor que a Senhora lhe havia pedido, aos moradores do seu lugar.

Acudiram todos a ver e a venerar a Mãe de Deus, e pretenderam levá-la, como o fizeram, para a sua Igreja, que já tinham dentro do lugar, e erigir-lhe nela uma capela. Porém não se acomodou a Senhora à sua vontade, mas à vontade do Altíssimo, porque era sua disposição que fosse venerada no mesmo lugar do seu aparecimento, porque sempre que a levaram para a igreja do lugar ela fugiu para a sua escova florida.

E esta fuga parece ter-se repetido várias vezes. O que visto pela gente daquele povo, resolveu fundar-lhe no mesmo sitio um templo, no qual até aos dias de hoje é venerada, dispondo-o de tal forma, que o Altar da Senhora, que é o maior, ficasse sobre a mesma escova ou giesta do seu aparecimento.



O Caso da Lagoa - Palaçoulo

Naquele tempo existia uma lagoa de água retida e insalubre, ao fundo da Praça da Cruz, onde actualmente está implantado um edifício público, conhecido como Casa do Povo. Mas apenas ocupa uma parte, pois a lagoa era mais ampla, em todos os sentidos. Lá bebiam as vacas, até sem que fosse preciso assobiar-lhes. Via-se e ouvia-se chuparem aquela água estagnada, com gosto preferencial em relação a qualquer outra...
Aquela mesma lagoa, no Inverno cobria-se de gelo. Então havia rapazes, jovens e homens adultos que se divertiam a escorregar naquela espessa geleira. Por isso, ainda há quem se recorde de um palaçoulense que se deparou com sérias dificuldades em sair de lá, porque o gelo se partiu.
Salvou-se com a ajuda de outros conterrâneos que, da margem, lhe lançaram os paus e a ponta de uma corda grossa, localmente denominada “lúria”, utilizada para apertar as carradas grandes, geralmente de lenha ou molhos de cereais. Assim que o resgataram, já teso com o frio e semi-afogado.

Bom! Depois desta descrição, passamos a contar o que aqueles tais jovens fizeram, de sua espontânea e livre opção: Com baraços e cordéis apertados, fizeram com que um feixe dos destroços acabados de recolher daquela dupla imagem desmantelada. E zumba! Aí vai aquilo tudo para a lagoa, para que o diabo ou demónio, que ali tinha uma boa parte do seu focinho, feio de meter medo, se afogasse de uma vez para sempre. Mas que é que havia de acontecer? O inesperado daquele improvisado feixe teimava em não se afogar e até parecia que “refunfunhegava” cada vez mais, provocantemente, com tantas bolhas sonoras de agua que emitia, à medida em que se introduzia nos muitos buracos feitos pelo caruncho e por umas “rachicas” que tinha o “caramono”.

Então, os rapazes, para que se afogasse e parasse de refilar, toca de lha atirarem com calhauzada, pois naquele tempo, pedras era o que mais havia por ali. Ao mesmo tempo, invectivavam-no com veemência: “inda refunfunhegas, caramonico de mil demonhos”?! E continuaram a lançar-lhes pedras e o mais que encontravam, para que aquele embrulho maléfico e provocante desaparecesse para o mais fundo da lagoa, também persistentemente empurrado pela talvez ingénua, constante e aparente diabrite expressa no mesmo “inda refunfunhegas caramonico de mil demonhos”? Assim foi, até que com o peso das pedras lançadas para cima, aquele estranho conjunto já estava quase totalmente submerso quando uma onda de alvoroço começou a correr pelo povo, relativamente à pirraça, “perrice” ou simplesmente inadvertido divertimento da rapaziada, mas já não foi possível evitar nem remediar, o que já era façanha consumada.

O próprio Cura, advertido foi até a lagoa, mas já nada conseguiu ver nem vestígios do malfadado feixe de bocados, nem bolhas a “refunfunhegar”, nem sequer a rapaziada que tinha totalmente desaparecido, amedrontada, cada um para seu lado.

O caso foi aproximadamente assim, simples, mas iria ficar na lembrança de gerações.



Lenda do Naso

A Capela de Nossa Senhora do Naso é um pólo de atracção principalmente em dia de romaria.

Embora à volta desta capela se tenham, recentemente construído algumas outras capelas, reza a lenda que ela foi edificada por um casal mirandês.

Estando o homem pastoreando o seu rebanho, apareceu-lhe uma Senhora que pediu para lhe construir naquele local uma capela, indicando-lhe, nessa mesma noite, na Serra do Naso, por meio de uma procissão com luzes, o local exacto onde a capela deveria ser erigida. O homem recusou-se, temendo a mulher, mas Nossa Senhora insistiu no pedido.

Capela de Nossa Senhora do NasoMuito a medo, o homem fez saber à mulher do desejo da Senhora. Mas a mirandesa não esteve pelos ajustes e começou a refilar: nesse momento ficou tolheita, diz-se que por castigo de Nossa Senhora.

Quando se viu aleijada, a mulher prometeu que faria a capela e, no mesmo momento, voltou ao seu estado normal, pelo que imediatamente se iniciaram as obras.

Consta ainda que, ao serem colocadas as pedras no carro, os bois o “tangiam” sozinhos, sem mostrarem o esforço pelo peso da carrada e sem precisarem de boieiro, regressando a casa dos donos para novo carregamento de pedra.

Assim se construiu a capela desejada, cuja administração é feita por alguém contratado pelos descendentes daquela família.



A Lenda da Moura


Conta-se que, num certo dia, durante o mês de Janeiro, na ribeira de Vila Chã de Braciosa, passava por ali um jovem cabreiro que cuidava das suas cabras, quando ouviu uma voz que dizia:

- Antonho, pega uma rosa.

- Olha! Rosas em Janeiro! - Respondeu ele.
Olhando e aproximando-se viu que a voz era de uma menina que trazia na mão uma rosa. O cabreiro ficou surpreendido com a oferta que a menina lhe fez e aceitou a flor de bom grado.

A menina recomendou-lhe, no entanto, que não a mostrasse a ninguém. Quando Antonho chegou a casa, colocou a rosa no fundo de uma arca velha, entre a roupa.

No dia seguinte, a sua mãe, querendo remover a arca, encontrou a bela flor e ficou sem palavras. Resolveu, então, mostrar às vizinhas o que o filho tinha guardado. Ao verem a rosa, logo esta se transformou em carvão e Antonho nunca mais viu a menina, que se pensa que seria uma moura.

Existem por todas as aldeias do concelho de Miranda vária lendas da Moura encantada.



A Povoação de Agarez

Relacionada com a Serra do Alvão, cenário das lendas O Calhau do Encanto e As Picaretas de Oiro, existe uma outra que se refere à origem, nome e actividade dos habitantes de Agarez.
Agarez é uma risonha e soalheira aldeia, alcandorada nas faldas da Serra do Alvão, a oito quilómetros, aproximadamente, de Vila Real. Foi notável pelo artesanato do linho que os seus moradores cultivavam, teciam e bordavam primorosamente.
A imaginação que ajudou a criar os caprichosos desenhos dos seus bordados ajudou também a criar a curiosa lenda que nos explica a sua génese.
Em tempos muito remotos, no mesmo lugar em que se encontra o actual povo de Agarez, havia um outro chamado Aragonês, nome que lhe fora dado pelos seus fundadores, originários do Reino de Aragão.
Lenda - A povoação de AgarezQuando estes lá chegaram, construíram as primeiras casas e começaram a surribar as terras arenosas e a cultivar o milho que era o prato forte da sua alimentação.
Um dia, no decorrer desta faina, encontraram, com espanto e alegria, um largo filão de oiro que parecia não ter fim. Abandonaram logo os trabalhos agrícolas para se entregarem, com avidez, à exploração do precioso metal que iam amontoando nos canastros do milho.
Depois de terem enchido os canastros, entenderam que era muito arriscado guardar ali tão valioso tesoiro e decidiram levá-lo para a serra e escondê-lo debaixo da areia.
Fizeram, para isso, grandes dunas, com galerias interiores, e trataram de o transportar para lá em carros de bois.
Quando andavam naquela freima, passou lá o Diabo que, ouvindo o estridente chiar dos carros, se aproximou, curioso, e parou, agachado atrás dos arbustos. Arregalou bem os olhos e pôs-se à escuta:

- E se alguém descobre o oiro? — pergunta um.
- O Diabo seja surdo — respondem os outros em coro.
- E se alguma enxurrada leva a areia? — lembra outro.
- Cruzes, Canhoto, vociferam os restantes.
- Não, se Deus quiser, não vai acontecer nada disto — concordaram todos.
Neste comenos, um dos sacos rompeu-se e as pepitas espalharam-se pela encosta.
- Rais part’ó Diabo! — praguejou alguém.
Ao ouvir isto, o Diabo afinou, perdeu a paciência e não quis ouvir mais. Furioso, jurou vingar-se daqueles títeres desprezíveis que o infernizavam com alcunhas e pragas, e, ainda por cima, eram cristãos.
A espumar de raiva, deitando lume pelos olhos, com o rabo entre as pernas, esgueirou-se, sorrateiramente, para não ser notado, a cogitar na maneira de pôr em prática o seu propósito de vingança.
- Haviam de pagar, e com língua de palmo, o atrevimento, ou ele deixaria de ser Diabo.
Então, lembrou-se de que, lá para os lados de Penaguião, havia uma terra chamada Mafómedes, cujos habitantes seguiam a lei de Mafoma e eram, por isso, inimigos figadais dos cristãos.
Estugou o passo e para lá se dirigiu, sem perda de tempo. Com a promessa de lhes entregar um fabuloso tesoiro, facilmente convenceu os Mouros a acompanhá-lo. Com o Diabo na dianteira, armados até aos dentes, transpuseram, pela calada da noite, os desfiladeiros do Marão e chegaram a Aragonês, antes do dealbar, quando os Aragoneses dormiam, ainda, a sono solto.
Sem encontrar resistência, mataram todos os cristãos e destruíram-lhes todas as casas.
Ao romper da manhã, dirigiram-se para o local das dunas à procura do oiro escondido. Mas, quando começaram a revolver a areia que o cobria, um forte abalo sacudiu a encosta e fez rolar, lá do alto do Alvão, uma cordilheira de penedos que os esmagaram e soterraram, com armas e bagagens.
Daquela hecatombe, escapou apenas o Diabo, que deu às de Vila Diogo, sem mais aquelas, e um casal mouro que aí se fixou e reconstruiu a povoação à qual deu o nome de Agarez, em memória da sua ascendente Agar, a famosa escrava de Abraão, que deu origem aos Agarenos, seus correligionários.
Os habitantes da nova povoação passaram a dedicar-se à cultura do linho com o qual teciam e bordavam maravilhosos lençóis, cobertas e toalhas, uma ar te que os tornou conhecidos e que ainda hoje perdura, embora em menor escala.
É de lá que vêm as cobiçadas peças de linho que embelezam e valorizam a tradicional feira de São Pedro, a vinte e nove de Junho, em Vila Real.
É esse o seu oiro verdadeiro, porque o outro, esse lá continua, inacessível, debaixo dos impenetráveis penedos, bem guardado pelo Génio da Montanha!

Fonte: LITERATURA POPULAR DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes)


Senhora de Balsamão

Perto de Chacim, aldeia do Concelho de Macedo de Cavaleiros, lá no alto do Monte Carrascal, há um convento habitado pelos padres marianos. E, junto do convento, há uma ermida branquinha aonde diariamente chegam grupos de pessoas que aí vão rezar, mergulhar no silêncio que dá paz ao espírito e apreciar a paisagem fascinante que dali se desfruta.

A pequena ermida tem por Padroeira Nossa Senhora de Balsamão, nome curioso, cuja origem a lenda seguinte nos vai explicar.

Segundo a lenda, no lugar da ermida, havia antigamente uma mesquita em honra de Maomé; e, no sítio do convento, um castelo ocupado por soldados mouros, às ordens dum rei cruel, inimigo figadal dos cristãos aos quais impunha, além de pesados impostos pecuniários, o humilhante imposto das donzelas.

Esse imposto consistia na obrigação de todas as raparigas dos seus domínios passarem a primeira noite do seu casamento no seu harém, para satisfazer os seus caprichos animalescos e libidinosos.

Amedrontados pelo seu grande poderio e pela sua extrema crueldade, os súbditos submetiam-se, embora revoltados, a esta ignominiosa prepotência, por se reconhecerem incapazes de se lhe oporem com êxito.

Longos anos se passaram debaixo desta humilhação revoltante, até que, um dia, um jovem, destemido e audaz, resolveu pôr fim a esta odiosa servidão.

Na véspera do seu casamento, jurou à noiva que não a deixaria sujeitar-se àquela desonra insuportável. A noiva, receosa da vingança do despótico tirano, implorou fervorosamente a protecção de Nossa Senhora de quem era muito devota e prometeu levantar-Lhe uma capela se Ela lhe valesse naquela angustiosa aflição.

No dia do casamento, depois da boda, o jovem recém-casado, disfarçado com o vestido da esposa, e acompanhado dos amigos com quem tinha combinado o plano da revolta, apresentou-se no castelo, pedindo licença para, todos juntos, oferecerem presentes e prestarem vassalagem a tão alto Senhor.

O pedido foi aceite e a comitiva entrou na sala do castelo com as facas de matar porcos, dissimuladas nos açafates, à guisa de presentes.

Quando o rei moiro apareceu, acompanhado da sua guarda real, para receber os presentes e levar a noiva para a sua alcova, o jovem puxou do punhal e cravou-o no coração do tirano, ao mesmo tempo que os companheiros faziam o mesmo aos guardas que o acompanhavam.
Aos gritos lancinantes dos moribundos, irromperam na sala estrepitosamente os restantes soldados, em grande número e armados até aos dentes.
A luta foi terrível e desigual: dum lado, a coragem e a determinação; do outro, a crueldade e a força. E, como contra a força não há resistência, a vitória pendia naturalmente para o lado dos mouros.

Mas, quando os cristãos começavam a fraquejar, feridos pelos alfanjes dos maometanos e tudo parecia irremediavelmente perdido, apareceu surpreendentemente, no meio deles, uma Senhora alta, toda vestida de branco, com um vaso de bálsamo na mão, que começou a ungir-lhes as feridas.

À medida que a Senhora desconhecida os ungia, as feridas ficavam subitamente curadas e a coragem renascia-lhes dentro da alma. Renovadas as forças e empolgados com esta aparição, atiraram-se, como S. Tiago aos mouros e a sorte do combate começou a mudar.

Agora, eram os mouros que retrocediam, apavorados com aquela aparição inopinada e inexplicável que atribuíam a alguma feitiçaria dos inimigos e contra a qual se sentiam impotentes para lutar.

Desmoralizados, incapazes de continuar a luta, puseram-se em fuga, precipitadamente, encosta abaixo, atropelando-se uns aos outros, para salvarem a vida. Mas encontraram pela frente toda a população que entretanto tomou conhecimento da revolta dos jovens e se preparou para os ajudar.

Então, os mouros, atacados pela frente e pela retaguarda, sofreram uma terrível chacina que os vitimou implacavelmente.

E assim acabou a abominável opressão do domínio sarraceno e começou a liberdade dos habitantes da região, os quais, atribuindo a vitória a Nossa Senhora, que, com o bálsamo na mão, curou as feridas dos seus filhos e lhes infundiu ânimo para levarem de vencida os odiados opressores, e ainda para darem cumprimento à promessa de noiva, iniciaram a construção da capela em sua honra, precisamente no local da antiga mesquita.

A Nossa Senhora deram o nome de Senhora do Bálsamo na Mão, que depois evoluiu para Senhora de Balsamão.

E ao lugar onde os mouros sofreram a chacina deram o nome de Chacim, terra próxima do Santuário de Balsamão.

Fonte: LITERATURA POPULAR DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes)



O Calhau do Encanto

A Serra do Alvão, com os seus ciclópicos penedos e ravinas alcantiladas, vestida de branco no Inverno e de verde no Verão, com ar severo e misterioso, era ambiente propício para excitar a imaginação dos que por lá andavam a ganhar o pão ou por lá passavam, a caminho de Vila Real. Não admira, pois, que, à sua volta, as lendas surgissem, com toda a naturalidade.
Lá bem no alto da serra, junto da povoação de Arnal, ergue-se um descomunal fragão, chamado Penedo Negro e também A Capela, por ter um recorte em forma de portão de igreja, forrado de musgo verde e macio.
Os pastores e os viandantes olhavam-no com curiosidade e receio e passavam lá com o credo na boca, pois havia quem dissesse que, à meia noite, lá dentro, se ouvia um cantar muito triste e arrasta­do de mulher que, no entanto, ninguém conseguia ver.
Mas, certa madrugada, ainda com estrelas no céu, passou por lá um aldeão, recoveiro de ofício, que ia à Bila fazer compras, como de costume. E justamente quando ladeava o esfíngico penedo, ouviu um ruído surdo semelhante ao ranger de gonzos de pesado portão.
Com os cabelos eriçados, olhou para o sítio donde viera o ruído estranho e deu com os olhos numa Senhora muito linda, de sorriso triste mas encantador, como nunca tinha visto, que lhe disse com voz meiga:
- Não tenhas medo e presta bem atenção ao que vou dizer-te. Eu sou uma moura encantada e tenho tanto oiro que não há balanças que o possam pesar. Pois todo este oiro será teu e eu própria irei para tua casa e casarei contigo, se conseguires desencantar-me. Para que isso aconteça, traz-me da Bila uma bola de quatro cantos. Mas toma bem sentido: não a “encertes” por nada deste mundo; se não, dobras-me o encanto.
Dito isto, desapareceu no interior do Penedo Negro e a porta voltou a fechar-se como se abriu.

O Calhau do Encanto (2)

(continuação)
O bom recoveiro, muito surpreendido com aquela inesperada aparição, retomou a jornada, serra abaixo, sempre a repetir as palavras da linda Senhora que não lhe saía do pensamento.
Mal entrou nas portas da Bila, tratou de mercar a bola de quatro cantos, não fosse o pão acabar cedo, pois era dia de feira. Só depois iniciou as outras voltas. Apreçou, aqui e ali, a mercadoria e fez as compras para si e para os vizinhos. Enfiou o alforge no grosso varapau de marmeleiro apoiado sobre o ombro e pôs-se a caminho de casa, já com o sol a baixar para trás da serra.
E, como não tinha comido nada, pois comer na estalagem é um roubo, e a jornada era longa e penosa, sentiu uma vontade irresistível de comer. Mas comer o quê, se só levava a bola de quatro cantos e a Senhora lhe recomendara tanto que a levasse bem inteirinha? E depois ia perder toda aquela riqueza que a Senhora prometera dar-lhe?
Pôs de parte aquela ideia maluca e continuou a caminhar. Mas um pouco a cima de Agarez, avistou uma fonte gorgolejante que o convidava a matar a sede e a descansar. E, como à fome e à sede ninguém resiste, resolveu parar, pensando lá com os seus botões:
- E certo que prometi à Senhora levar a bola inteira e eu não sou homem de faltar à palavra. Mas, como diz o outro, a fome não tem lei. Vou comer só um canto e levo-lhe os outros três. A Senhora pareceu-me tão boazinha... há-de compreender e perdoar.
E, se bem o pensou, melhor o fez. Sentou-se à beira da fonte, pós o alforge no chão, comeu o canto da bola e bebeu uma tarraçada de água fresca. Depois, já reconfortado, retomou a subida da encosta.
Ao chegar junto do Penedo Negro, bateu com a ponta do varapau. A porta abriu-se rapidamente e a Senhora reapareceu, mas agora com o semblante carregado, e disse-lhe com ar severo:

         Em cavalo de três pernas,
         Contigo não posso ir.
         Fecha-te, porta de pedra,
         Para nunca mais te abrir.  

E desapareceu, enquanto o Diabo esfrega um olho, atrás da porta de pedra, para sempre.
O pobre do homem, com os três cantos da bola na mão e o alforje das compras ao ombro, partiu, desalentado, para a sua aldeia, onde passou o resto da existência, a lamentar a tentação de comer da bola de quatro cantos, e a calcorrear os caminhos da serra para ganhar a vida.
E a Senhora linda lá continua encantada, com os seus tesouros fabulosos, no Penedo Negro, a que os povos da serra, por essa razão, também chamam Calhau do Encanto.

Fonte: LITERATURA POPULAR DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO, por Joaquim Alves Ferreira (5 volumes)




Lendas do Minho

As lendas surgem como importantes manipulações e apropriações locais de materiais mítico-religiosos ancestrais. A mitologia popular, esse vasto universo que se situa entre a história e as "estórias", entre a crença viva e a narrativa fabulosa, revela a sobrevivência de antigos cultos ligados às forças da natureza. O universo dos "mouros" foi um limbo original e desconhecido, mais próximo da natureza.
As presenças dominantes do elemento feminino, da serpente, das fontes, grutas e rochedos ou ainda da frequência com que a acção lendária se desenrola durante o solstício de Junho, são alguns dos elementos que atesta a sua antiguidade e o sentido mítico deste tipo de manifestações associadas a antigos cultos ligados á fertilidade da terra e à fecundidade das gentes e dos animais.» (1)


(1) Retirado de "Cores, Sabores e Tradições - Passeios no Vale do Lima"



Concelho de Ponte de Lima
Concelho de Ponte de Lima
» A mal degolada
(Bertiandos - Ponte de Lima)

» A lenda da Cabração
(Cabração - Ponte de Lima)

» A lenda do Galgo Preto
(Ponte de Lima)

» A lenda de Santa Comba
(Santa Comba - Ponte de Lima)

» O Castelo do Monte da Nó
(Correlhã - Ponte de Lima)

» Os Três Penedos
(Bárrio - Ponte de Lima)

» O Rego do Azar
(Santa Comba  - Ponte de Lima)

» O Rio Lethes
(Ponte de Lima)




A Mal Degolada

«Em tempos muito antigos viveram nas margens do rio Lima, perto da vila de Ponte de Lima algumas famílias de mouros. Eles teimavam em lá continuar.

Uma jovem moura muito bonita, apaixonou-se por um jovem cristão. Então começaram a namorar em segredo, porque eles não tinham a mesma religião. As famílias não aceitavam tal namoro.

Um dia, foram dizer ao cristão apaixonado, que ela ia namorar todas as noites com outro homem, para junto da fonte. O rapaz não queria acreditar, mas ficou desconfiado.

Assim, armado de um comprido punhal foi espreitá-la junto à fonte, mas escondido.

Verificou que era verdade o que lhe tinham dito. Ficou cheio de ódio e quis vingar-se. De um salto, enterrou o afiado punhal no pescoço da moça, repetidas vezes.

De repente, ouviu-se a voz de um velho e ele parou:

- Desgraçado, o que fizeste ?! Acabas de matar a moça que por amor a ti, aprendeu o catecismo. Acabei agora mesmo de a baptizar, como cristã.

O velho que falou, era um santo frade do convento. Ali vinha todas as noites, para a família dos mouros não desconfiar.

Isto aconteceu onde hoje é a freguesia de Bertiandos. O povo chama à fonte, a "Fonte da Moura" que fica na quinta de Bertiandos. Há também uma rua vizinha chamada a Rua da Fonte.»



Fonte: Trabalho dos alunos do 4º ano da Escola Primária de Bertiandos
Ecos do Passado / N.A.P./P.I.P.S.E - 1992



Lenda da Cabração

«Após o recontro no Rêgo do Azar, quiz D. Afonso Henriques voltear pelas montanhas próximas, caçando ursos e javalis. Convidou alguns poucos ricos-homens e infanções. Quando estavam no sítio que hoje se chama Cabração, apareceu muito açodado o Capelão das freiras de Vitorino das Donas, que à frente de moços com cestos pesados andava desde manhã à busca do real monteador, com um banquete mandado do Mosteiro. Em boa hora vinha a refeição. Estendeu-se na relva uma toalha de linho e sentados em troncos de carvalho cortados à pressa, começou o jantar. Alegre ia correndo. D. Nuno Soares por alcunha Nuno Velho o postrimeiro para diferença de seu avô, a quem também haviam chamado o Velho e cujas proezas ainda se recontavam em toda a terra da Cervaria, começou a trinchar um leitão assado.
- Parece-me que tens mais jeito para matar infiéis, - disse-lhe o Rei brincando. - Ai Real Senhor, antes eu ficasse morto com os últimos que matei, que desde essa refrega não passo um dia que me não lembre do momento em que o bom cavaleiro Gonçalo da Maia exalou o derradeiro suspiro encostado ao meu peito.

- Quisera eu ouvir da tua boca essa heróica morte do Lidador, interrompeu o Monarca triste, mas curioso. E o Senhor da Torre do Loivo obedeceu, com voz pausada e lágrimas nos olhos.

Ia escurecendo o dia e era tão esquisita a coincidência de estar ali um punhado de homens, senão solenizando um aniversário, festejando uma vitória, que talvez um pressentimento apertasse o coração dos guerreiros.

Atentos, escutavam silenciosos a narração. De golpe ergueu-se o Espadeiro e olhou fito para as bandas da Galiza.

- Que examinas D. Egas? - perguntou o Príncipe. - Vejo além muito ao longe um turbilhão de pó, que se aproxima. São talvez inimigos que procuram encontrar-nos descuidados.

De facto vagalhões de poeira negra encobriam multidão fosse do que fosse. O ruído do tropel era cada vez mais distinto.

- Sejamos prestes - gritou o Rei, cingindo o seu enorme espadão. Todos fizeram o mesmo. - Cavalgar, cavalgar; já não era outra a voz que se ouvia, enquanto cada um se dirigia para o lugar onde prendera o seu cavalo. O capelão olhou, escutou e sentou-se começando a comer aqui e além os deliciosos postres e bebendo aos goles pachorrentos um licor estomacal, resmungando.. - Deixa-los ir que voltam breve. Eu era capaz de apostar todo o mel deste monte, em como sei que inimigos são aqueles. E mais dizem que é mel igual ao do Himeto. A historia do Lidador é que lhes esquentou a cabeça.

Pouco depois voltavam os monteadores rindo à gargalhada. - Cabras são: - disse o rei ao apear-se, e, dirigindo-se ao padre: - bem fizestes vós que não bulistes. E D. Afonso tomando um púcaro e enchendo-o de vinho num cangirão, acrescentou.

- Bebei todos, que estais muito quentes e podeis ter um resfriado, e dizei-me depois se não valeu a pena o engano para nos refrescarmos agora com este delicioso néctar.

Capelão, quero comemorar o caso de confundir rebanho de cabras com mesnada de leonezes e beneficiar o convento para vos honrar a vós que fostes, não sei se mais perspicaz, se mais valente do que nós debicando mui sossegadamente em todos os doces. Vou coutar aqui uma terra, para que as boas monjas possam de vez em quando apanhar bom ar da montanha e rir-se de nós.

Riscou-se o couto e nessa noite os cavaleiros dormiram na ermida da Senhora de Azevedo. O dito do Rei "Cabras são" corrompeu-se em Cabração.»


Lenda do Galgo Preto

Se alguma vez passares ao anoitecer na ponte que dá o nome á encantadora villa do Lima, talvez enxergues uma sombra dando reviravoltas no areal, aproximando-se do rio, parecendo beber com sofreguidão, quedar-se a olhar atonita para a corrente das águas, e depois caminhar vagarosa e cabisbaixa para os lados de Vianna, até desaparecer de todo.

Correndo atrás d’ella, correra tambem, e, quando suppozeres que está perto, has de vel-a dar um salto, e sumir-se nos ares.

A configuração do duende não ta saberei dizer; o povo teima desde longo tempo em chamar-lhe o Galgo preto do areal. Há quem no tenha visto sair detrás da igreja dos Terceiros; donde vem, para onde vai, ninguém o pôde ainda explicar.

É uma alma penada. Não tenhas dúvida, leitor; pois outra coisa pôde ser uma aparição de tantos anos, em fadário assim constante e aborrecido?!

*

«Quando EI-Rei D. Manuel foi a Ponte do Lima levou na comitiva um galante moço, a que muito se affeiçoára, por nome D. Ruy de Mendonça.

Dividiram-se os cavalleiros do sequito, luzido e numeroso, pelas casas dos fidalgos; e coube a D. Leonel de Lima albergar o escudeiro valido.

Era D. Leonel de honrada estirpe e ainda aparentado, segundo diziam, com a família dos viscondes de Villa Nova da Cerveira; mas pobre, e malavindo com os parentes, pois casára à sua vontade (conforme o dizer dos linhagistas) com a filha de um cavalleiro, cujo nome não andava nos livros de EI-Rei, filha que houvera de uns amores em Arzilla com uma sectaria de Mafoma

Assim como nas igrejas não é permitido que se venerem duas imagens da mesma devoção, não quiz também a natureza que o typo ideal da mulher tivesse naquela casa duas representações iguaes; e talvez por isso Magdalena – que assim se chamára a christã filha da moira – finára-se tranquilamente no dia em que sua filha Beatriz de Lima completára dezasseis anos, e podia já substituil-a no labutar quotidiano e creação de dois irmãos de curta idade.

Era uma joia esta Beatriz, mas qu ninguém apetecia. Não só lhe faltavam ocasiões de aparecer, mas, naquelas poucas em que a viam, era o seu trajar tão simples, contrastando por tal forma com a magnificiencia do trajar de suas parentas, que os mancebos dos arredores preferiam, a perscrutar-lhe os encantos, dedicar-se ás frequentadoras triumphantes dos saraus, ou espinotear os seus ginetes em frente ás geloseias das grandes herdeiras. Além d’isso, a sua beleza tinha antes a suavidade do luar que o brilho do sol; não havia os resplendores que atordoam nos seus olhos límpidos e claros, nem no seu porte modesto os meneios que seduzem.


Era uma santa, diziam; e talvez fosse. Contudo, se alguém mais perspicaz attendesse ao seu olhar de certas occasiões, e reparasse como por vezes a sua mão nervosa se contrahia, adivinhava logo que naquella natureza alguma liga houvera que não provinha do ceo. Era talvez o sangue da avó moira a referver-lhe nas velas, da avó, que, segundo cochichavam as mulheres de alguns velhos homens-de-armas, fôra grande mestra em bruxedos e feitiçarias.

Ficar D. Ruy de Mendonça para logo preso de amores a Beatriz admirou de certo muito ás netas dos infanções e ricos-homens, que requintavam em galas e louçanias para agradar ao moço cortezão, e chasqueavam soberbas da neta da africana; mas

não era justo o reparo. A grandezas de luxuosa fidalguia, a primores de elegancia e opulência estava o escudeiro habituado; nesse gencro não podia encontrar na villa coisa que o espantasse.

E parecer-lhe-ia talvez que se não casavam bem arrebiques com a simplicidade amena da paisagem. A serra, o valle e a campina exigem, por certo, na mulher que tiver de lhes dar vida e colorido, alguma diferença das mentiras que a humanidade mais civilizada inventa para esconder em ouropeis a corrupção que vai minando os grandes centros.

Aí, netas dos infanções e ricos-homens! Beatriz, se não era melhor que vós, era ao menos mais artista…

Preso de amores ficára D. Ruy, e ainda se não atrevera a confessal-o; por isso era maior o encantamento em que viviam os dois. Mas o amor é como que o ultimo brinco da gente moça, e alguma coisa traz de certo das contradicções da meninice. As creanças são tanto mais felizes com o brinquedo, quanto maior é o segredo do seu engenho; não descansam porém se o não partem, para satisfazer a curiosidade, e, ao approximar-se o desvendar do mysterio, redobram de alvoroço, não reparando que vão assim estragar o que havia de melhor no entretenimento.

Um dia ao entardecer encontraram-se ambos, ao fundo da modesta horta banhada pelo rio.

Era a vespera da partida, EI-Rei voltava à côrte, e a D. Ruy forçoso era acompanhal-o.

Estavam tristes e scismadores; talvez o coração lhes presagiasse que seria aquelle o derradeiro crepusculo em que assistiriam juntos ao apparecer das estrelas, a essa especie de saudação garrida que a noite manda aos que têm a cortezia de a esperar com respeitosa affeição. Talvez; Mas nem por isso eram menos felizes: ha contentamentos e tristezas que andam tão confundidos no coração!

Como se quebrou este enleio dos dois enamorados, não o diz a lenda, que só nos transmittiu as ultimas phrases do dialogo que após elle tiveram; phantasie cada um, como as suas lembranças lho consentirem, e, se quizer imaginar com mais probabilidades de acerto, vá sentar-se na relva à sombra das duas grandes arvores que estão no sitio, e são ainda as mesmas que presenciaram a scena, a acreditar no asserto do povo. Eu por mim acredito.

A tradição conservou apenas o final do colloquio, e esse deve ser textual, porque toda a gente o conta do mesmo modo:

- Juras? - perguntou Beatriz.

- Juro.

- E atreves-te a jurar sobre as aguas, correntes? - insistiu a donzella, faiscando-lhe no olhar esse não sei quê da sua natureza que não provinha do ceo.

- Juro! -confirmou o mancebo, estendendo as mãos para o rio -e se eu faltar seja negra a minha alma enquanto estas aguas correrem!

*

Decorreu apenas um anno. É grande a azafama no palácio dos Mendonças, em Lisboa. O dono da casa vai finalmente participar a toda a côrte estar justo o casamento de sua filha, herdeira de seus grandes haveres e nobreza, com o único parente que poderia continuar aquella representação na mesma varonia.

As instancia do Rei, e todas as rasões heráldicas da família não tinham por muitos mezes conseguido resolver D. Ruy a julgar-se indispensável para conservar sem quebra uma raça de cortezãos.

E nunca o resolveriam certamente essas considerações. Estou até em afirmar que poderá muito mais com elle a beleza magestosa da prima, e não menos a esperança de uma vida com fausto e poderio. As riquezas do oriente iam perturbando as imaginações, e os netos dos cavalleiros da Ala dos Namorados necessitavam preparar-se com tempo no exagero do luxo e dos prazeres materiaes, para darem de si como presente á sua terra esses grandes senhores que haviam de entregar um dia a Castella o reino, conquistado ás lançadas pelos seus rijos antepassados.

(...) Vai grande azafama no palacio dos Mendonças. As salas enchem-se de convidados, e todos esperam contentes ou invejosos a noticia formal de estar satisfeita a prosapia do neto dos soberanos de Biscaia. Só o noivo é quem falta ainda.

( ... ) Vai grande tristeza no palacio dos Mendonças. Morreu de repente, ao entrar para o coche, D. Ruy, o perjuro.

(...) Desde essa noite em diante começou a apparição do Galgo preto nas margens do rio Lima!

A sua alma ha de ser negra enquanto as águas correrem!

*

Leitor ousado que te ris da crendice popular, ouve-me por piedade. Se alguma vez fores à beira Lima, não faças juras fataes sobre as aguas correntes. Naquelle rio escondem-se terríveis segredos, e lá anda pelo norte, espalhado em certos olhares, esse algo subtil que não provem do ceo.

Por piedade, sobre as aguas correntes não faças juras fataes!


Fonte: Conde de Bertiandos, O Galgo Preto, in Lendas, 1898



Lenda de Santa Comba

«Ora um dia sucedeu passar pela ermida de Santa Comba um moço peregrino que se destinava a Santiago de Compostela, onde ia implorar o santo galego, de grande nomeada em terras de entre Douro e Minho.

A sua confessada, a prometida noiva, linda como os amores, adoecera repentinamente de misteriosa doença, e toda se definhava, coitadinha da pobre, sem vida nos olhos, que dantes eram como dois carbúnculos, sem alegria nos lábios, que dantes causavam a inveja dos rouxinóis.

E o namorado mancebo, pobrezinho de Cristo, pôs-se a caminho, cheio de fé num milagre, confiante no grande prestígio de Santiago.

Levava a escarcela vazia, e, por único recurso, para a longa caminhada através dos montes do Minho, a sua rabeca, primitivo instrumento de que fazia brotar sentidas melodias nos lugarejos que transitava...

E nunca lhe faltou pão nem pousada, e através montes e vales, foi seguindo sua romagem piedosa...

Já tinha caminhado sete dias e sete noites, quando se lhe deparou, junto do Lima, ensombreada por castanheiras seculares, a ermidinha de Santa Comba.

Nunca seus olhos haviam contemplado tamanha maravilha, madona de tanta riqueza e brilho!

Ficou como absorto, ficou fascinado. Involuntariamente, caiu de joelhos, em prece piedosa, com todo o fervor da sua alma de crente.

E a imagem da santa não foi insensível à sua oração... Comoveu-a a candura do moço namorado. Descerrando os lábios, num murmúrio doce, muito doce, interrogou:

- Que dor vos alanceia? Que sofrimento é o vosso, moço peregrino?

Entre soluços, o pobrezinho contou à santa as suas desditas, e o que o levava, cheio de esperanças, a Compostela.

- Podeis retroceder.. Vossa noiva é curada... A vossa ardente fé é digna desse prémio... Podeis voltar atrás!

Rindo e chorando, não cabendo em si de contentamento, e não sabendo como agradecer tão grande milagre, o peregrino pegou da rabeca, e fez ouvir uma canção plangente, repassada de sentimento, triste, muito triste...


Quando o arco ia a repousar do último gemido, que mais parecia vibrado nas cordas da alma, Santa Comba, olhos marejados de lágrimas, enternecia pela música gemente do violino, descalçou um dos chapins de oiro, e estendeu-o, num gesto gracioso, ao tocador de rabeca, que recebeu, mudo de assombro, a preciosa dádiva.

De regresso a casa, louco de alegria ao passar em Ponte, entrou na loja de um ourives a propor-lhe a venda do sapato de oiro.

Mas eis que o ourives, reconhecendo um dos preciosos chapins da Santa, começou de gritar:
-Roubo sacrílego! Roubo sacrílego! Prendam o ladrão!

E logo o prenderam, e, bem algemado, o conduziram para uma das torres da espessa muralha que defendia a povoação.

Debalde protestou a sua inocência, o pobre! Ninguém acreditava em suas juras. A história que contava, a justificar-se, era tida por grosseiro embuste...

E o julgamento foi rápido, e o moço peregrino foi condenado a padecer na forca morte afrontosa, sendo escolhido para local do suplício o largo fronteira à branca ermidinha que presenciara o crime que lhe imputavam.

Chegou o dia marcado para a execução da sentença. O desditoso conseguiu obter dos seus juízes que lhe fosse dado fazer oração junto à ermida, e ali fazer ouvir mais uma vez - a derradeira! - as harmonias do seu violino.

Já o carrasco espera que lhe entreguem o prisioneiro, para executar a justiça dos homens; já os frades e os religiosos entoam os salmos dos moribundos ...

Depois de ter ajoelhado em oração, o infortunado peregrino repetiu a música dolente que tempos antes lhe valera a mercê da santa, - a que ia dever agora a morte, o triste suplício da forca. Assombro dos assombros, milagre dos milagres, maravilha das maravilhas! Santa Comba descalçou o outro pé, e com um sorriso divino, em face da multidão deslumbrada, ofereceu o chapim de oiro, que lhe restava, ao tocador de violino! ...

Em vez da execução que estava preparada, logo se improvisou uma luzida festa, de uma alegria sem mancha; e, ao som de adufes e castanholas, houve danças e descantes; foi um dia de folguedo.

E o peregrino pôde seguir livremente o caminho da sua choupana, levando consigo um precioso talisman, uma riqueza: -os chapins de oiro de Santa Comba. Com eles presenteou a noiva, que foi encontrar florescente de saúde...

Santa Comba! - Que saudades!... jantares na modesta casinha da residência, em que a mãe e as irmãs do abade tôdas se afadigavam, amimando os convidados, muito felizes, muito satisfeitas... Festas na igreja, recamadinha de luzes, e rescendente de flores, com música e coros, e sermão do padre Cónego... Leilão de prendas no adro... baile na loja espaçosa do tio Zé da Estrada... E aquele lindo domingo de Páscoa em que o padre Gonçalo estreou a estola nova, branquinha, bordada a oiro!... E o baptizado do filho do regedor!... Santa Comba!...

Foi em Santa Comba, da boca da caseira velhinha do Dr. Francisco Maia, da boa tia Eufémia, que nos foi dado ouvir, numa tarde de Agosto, a lenda encantadora que aí fica, desataviada de enfeites...

Santa Comba! ... Que saudades!...»


Fonte: Delfim Guimarães, Santa Comba, in In Memoríam de Delfim Guimarães, 1872-1933, 1934



Lenda do Castelo do Monte da Nó

«Alcandorado sobre o delicioso vale do Lima, com as terras pingues da Facha, Vitorino das Donas, Correlhã e tantas outras a contemplá-lo cá no fundo, ergue-se o Monte da Nó.

Miradouro de rara beleza terá sido sempre e não admira que os límicos de remotas eras o tenham povoado e os Romanos até ali hajam subido também, criando uma povoação florescente, como o atestam as ruínas encontradas.

Mais tarde, vieram os Árabes e foi sob o seu domínio que o Monte da Nó atingiu o máximo esplendor.

Ergueram estes um castelo sumptuoso onde, no meio da maior munificência, reinava Abakir - por seu valor na luta conhecido por Feroz.

Coxins de oiro e escabelos forrados a damasco enchiam os aposentos onde tapetes persas e sedas das mais variadas cores se multiplicavam.

Rico e poderoso era Abakir e exigente se mostrava no partilhar de todos os prazeres mundanos. Com os grandes potentados da sua estirpe, dos melhores centros de elegância mandara vir mulheres e com elas repartia os ócios que as batalhas e a montaria lhe deixavam livres.

A todas tratava com deferência e delas recebia afagos e carinhos. Mas não deixou de reconhecer que uma - de nome Zuleima - embora ter, não revelava em sua presença aquele frémito de alvoroço e alegria comum às restantes. Tal facto o desgostava e feria no seu orgulho.

Por isso, embora veladamente, passou a deter nela o olhar e a travar diálogos, no sentido de averiguar o que lhe vai na alma. Reconheceu ser causa de tudo aquilo a sede de amor que a inundava. E descobriu nela a mais inteligente e digna de todas quantas ali juntara.

Por ela se apaixonou e às restantes acabou por despedir. Todo ele se deu a um enleio absorvente, acabando por esquecer prazeres da caça, convívio com guerreiros e cuidados de defesa. Fugiram-lhe amigos e conselheiro, despeitados, e os homens de armas partiram em busca de alcaides a quem desse gosto servir.

Abakir e Zuleima sorriam felizes, sem se darem conta de caminhavam para o abismo. Até que um dia os Cristãos, na mira de conquista e talvez alertados pelas deserções, vieram pôr cerco ao castelo.

Só então Abakir teve a noção da magnitude do erro cometido.

Sem outro recurso ao seu alcance, tomou Zuleima pela mão, com ela desceu à mais rica das salas e, depois de pronunciadas umas palavras de estranho teor, fez com que o castelo desaparecesse, sumindo-se no interior da terra.

E ali ficaram Abakir e Zuleima, no meio de tantas riquezas, a gozar as doçuras do amor ardente que os unia e por tantos séculos tem continuado a vigorar - porque ninguém pôde ainda desencantá-lo nem apossar-se de tesouros de tanta valia.»

Fonte: Escola Primária da Correlhã
Ecos do Passado / N.A.P./P.I.P.S.E - 1992



Lenda dos Três Penedos

«Há muito, muito tempo, um homem do lugar de Sangens, da freguesia do Bárrio, resolveu ir para o Brasil, como era costume naquele tempo. Deixou mulher e filhos e breve lá chegou.

Passados anos, começaram as saudades a apertar.

Num belo dia, abordou-o um misterioso homem que lhe perguntou:
- Tu és de Sangens? Do Bárrio?
E o nosso homem respondeu:
- Sou sim senhor!
- Pois bem, vou dizer-te uma coisa muito triste para ti. A tua mulher atraiçoou-te. É uma esposa infiel.

O nosso homem quase caiu sem sentidos. O outro, vendo-o assim, diz:
- Não te atrapalhes! Eu levo-te lá em pouco tempo, e assim, poderás vingar-te! Em troca do meu trabalho dar-me-ás a tua filha mais velha.
O homem respondeu:
- Está bem!
O homem misterioso ordenou-lhe:
- Monta nas minhas costas!
Ele assim fez. Em pouco tempo estavam em Sangens.

Ao chegarem, o nosso homem tomou primeiro informações com os filhos e vizinhos. Todos disseram que aquilo era mentira. Mas o homem misterioso agarrou a filha, que ele tinha na menina dos olhos, carregou com ela até aos penedos de Penouços, que são três grandes penedos encostados uns aos outros e entre eles há uma espécie de gruta. Num desses penedos há também uma cruz,  gravada na pedra pela Natureza.

Ao ver tal coisa, o homem misterioso largou a menina que ficou imóvel como uma estátua. Fugiu até ao Poço do Espigão ou Caldeirão, que outros lhe chamam o Poço do Diabo. Souberam que ele foi para lá porque pelo caminho por onde passou, deixou tudo queimado.

A menina depois de muito a procurarem, pais e padrinhos, foram encontrá-la nos referidos penedos. Fizeram uma grande festa, como não podia deixar de ser.

Os penedos ainda existem no lugar de Sangens.»


Fonte: Catarina Adelaide da Silva Amorim - 4º ano - Escola Primária de Bárrio.
Ecos do Passado / N.A.P./P.I.P.S.E - 1992




O Rego do Azar

«Nos tempos em que o moço Infante D. Afonso Henriques andava a guerrear o partido galego, já depois da batalha de S. Mamede, eram frequente s as incursões e as escaramuças entre o Minho e a Galiza, devido à guerra civil havida entre os cristãos.

Os adeptos da mãe de Afonso Henriques, chefiados pelo galego Fernando Peres e pela própria amante Teresa, não desistiram logo à primeira, apesar de bem derrotados em S. Mamede. Por isso o vitorioso revoltado de Guimarães teve repetidas vezes que acudir pelos caminhos serranos de Braga a Santiago de Compostela, de modo a expulsar os que pretendiam ser vassalos do Rei de Leão e não do primeiro Rei Português.

Numa dessas cansativas incursões, por um desses dias calorentos do Verão de Julho ou Agosto, iam os cavaleiros suados e sequiosos por um atalho que descia de um pequeno chão ou planalto, chamado de Gil ( Chão de Gã ), quando depararam com um pequeno regato ou rego de água. Deu ordem o chefe dos Portucalenses para desmontarem, darem água aos animais e eles próprios beberem.

Eis senão quando ainda mal saciados e dessedentados naquela água fresquinha, são atacados por um numeroso grupo de partidários galegos, que lhes fizeram muito dano em vidas, ferimentos e roubos de animais. Aquela pequena batalha não favoreceu os Portucalenses de D. Afonso Henriques, morrendo alguns junto daquele rego de água, afinal um rego de azar ou "Rego de Azal".

A piedade manda que, ao passarmos junto do pequeno "nicho das alminhas" naquele sítio do Rego do Azar, nos lembremos daqueles primeiros heróis da nossa Pátria.»

Fonte: Trabalho de pesquisa dos alunos da Escola Primária de Santa Comba.
Ecos do Passado / N.A.P./P.I.P.S.E - 1992



Lenda do Rio Lima



" Comandadas por Décios Junos Brutos, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 aC. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse, os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, empunhando o estandarte das águias de Roma o comandante chamou da outra margem a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do esquecimento."

«Com relação ao rio Lima, história e lenda encontram-se tão interligadas que nem sempre é fácil delimitar onde acaba uma e começa outra.

Foi sempre a beleza do rio a provocar encómios e o sentimento de incapacidade duma expressão condigna a atrair o poder sugestivo da lenda.

Vem dos velhos tempos o processo. Estrabão designou-o por Beliom e relata ter ocorrido nas suas margens um episódio militar entre Túrdulos e Célticos.

Iam já a atravessá-lo quando surgiu entre os dois povos uma discórdia.

Lutaram e foi o sangue do próprio comandante que se juntou ao de muitos outros a macular a brancura das águas.

Desorientados ficaram os soldados e, sem comando, se dispersaram pelas margens, em luta pela sobrevivência.
Lucano chamou-lhe o "Deus do Tacitus", em virtude da mansidão com que corriam as suas águas.

Tito Lívio denominou-o "Rio do Esquecimento" ("Oblivionis fluvis ou flumen").


Surgiu, então, a sua identificação como Lethes da mitologia, que tinha o condão de provocar em todos os que o transpusessem o olvido do passado e da própria pátria.

Campos Elísios passaram, em consequência, a apelidar-se os que circundavam, isto é, as suas margens.

Mais semelhantes a jardins, no conceito mitológico; onde, segundo o testemunho de Políbio, só durante três meses do ano as rosas não floriam.

É ainda Estrabão que nos diz ser esta a terra perfeita por qualquer fugitivo de Roma.

Dentro deste condicionalismo, aqui chegaram um dia, sob o comando de Décios Junos Brutos, as legiões romanas, com as altivas águias a tremularem nos pendões.

Vitoriosas haviam pisado as terras que estavam para sul e propunham-se prosseguir.

Desciam, a justante, dos lados de Ponte de Lima e teriam iniciado a jornada desse dia em Vitorino das Donas:
"Daqui saiu Bruto pelos campos tão celebrados com o nome de Elysios a procurar lugar em que com o se exército pudesse vadear as cristalinas águas do Lethes tão respeitadas com a fabula virtude de encantadoras." (João de Barros, Antiguidades de Entre Douro e Minho).

Encontravam-se no lugar da Passagem e fácil pareceu ao comandante a travessia.

Nesse sentido emitiu ordens, mas encarniçada se revelou a resistência dos soldados, conhecedores como eram dos poderes sortílegos atribuídos às suas águas.

Não perdeu ele a serenidade nem achou conveniente procurar convencê-los por meio de palavras.

Tomou a bandeira, ergueu-a ao alto, transpôs o vau e, já da outra margem, a muitos chamou pelo nome e incitou a seguirem-lhe o exemplo.

Por esse meio os convenceu de que, afinal, não era verdade o que a lenda propalava.

Assim exaltado nos advém, das mais longínquas eras, o fascínio deste rio que até aos nossos dias tem sido cantado por todos quantos puderam contemplá-lo.»


Fonte: Conde de Bertiandos, in Lendas, 1898


Última edição por Lusitana Cultura em Sex Fev 06, 2015 6:49 am, editado 3 vez(es)

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Re: Lendas de Portugal

Mensagem por Lusitana Cultura em Sex Fev 06, 2015 6:35 am

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Lenda do Galo de Barcelos

Ao cruzeiro setecentista que faz parte do espólio do Museu Arqueológico de Barcelos, está associada uma curiosa lenda - a Lenda do Galo de Barcelos.    

  ".......... Os Habitantes do Burgo andavam alarmados com um crime e, mais ainda, por não ter descoberto o autor. Certo dia, apareceu um Galego que se tornou de imediato suspeito do dito crime, visto que ainda não tinha sido encontrado o criminoso. As autoridades condais resolveram prendê-lo e, apesar dos seus juramentos de inocência, ninguém o acreditou. Ninguém julgava crível que o galego se dirigisse para Santiago de Compostela em cumprimento de uma promessa como era tradição na época, e fosse devoto fiel de S. Paulo e da Virgem Santíssima. Por isso foi condenado à forca.

Antes de ser enforcado, pediu que o levassem à presença do juiz que o havia condenado a tal destino. A autorização foi-lhe concedida, e levaram-no à presença do dito magistrado, que nesse momento se deleitava e banqueteava com os amigos. O galego reafirmou a sua inocência, e perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que se encontrava no centro de uma grande mesa, exclamando: «É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem», perante gargalhadas e risos, não se fizeram esperar, mas pelo sim e pelo não, ninguém tocou no galo. O que parecia impossível aconteceu. Quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo ergueu-se na mesa e cantou! Após tal acontecimento mais ninguém duvidava da inocência do Peregrino. O Juiz correu à forca e com espanto vê o pobre homem de corda ao pescoço, mas o nó lasso, impedindo o estrangulamento. O homem foi imediatamente solto e mandado em paz. Volvidos alguns anos, voltou a Barcelos e fez erguer um Monumento em Louvor à Virgem e a Santiago....."


Lenda do Milagre das Cruzes

A lenda do Milagre das Cruzes, muito antiga, está ligada à aparição de uma cruz acompanhada da figura de Deus, a um sapateiro Barcelense.

"......O povo fez aparecer, no local da aparição, uma ermida em honra do senhor da Cruz às costas, venerado numa imagem que um mercador destas terras trouxe de Flandres. A lenda entretanto explica de outro modo a presença da imagem. Segundo a tradição o Senhor da Cruz era irmão dos Senhores de Matosinhos e de Fão os quais teriam sido lançados à água em terras distantes.

A corrente tê-los-ia lançado um à praia de Matosinhos, outro à de Fão e o terceiro teria subido o Cávado de onde teria sido recolhido por almas piedosas que o levaram até Barcelos, dando-lhe aconchego na ermida do Senhor da Cruz, de onde nunca mais foi demovido...."




Lenda do Areal de Caíde


Reza a tradição que esta lenda advêm dos seguintes factos:

  "......Ao sul da Barragem de Penide, na freguesia de Areia de Vilar, estende-se um enorme areal, com fama de ter sido outrora uma Quinta, cujo dono, mau e severo, a deixou em legado a uma matilha de cães. Mas por castigo de Deus o rio "a levou", reduzindo o sítio a um extenso areal a que ficou a Quinta foreira aos cães..."



Lenda do Frade e o Passarinho

Reza a tradição que :

"... Em tempos muito afastados aconteceu de um frade, enquanto rezava o ofício no coro, Ter a sua atenção despertada pelo seguinte versículo da Salmodia: «« Mil anos à vista de Deus são como o dia de ontem que já passou »». Não entendia o frade o significado, pelo que, no fim orou com mais fervor a Deus para que lhe fizesse entender. Saindo do coro e ao passar no claustro do convento, ouviu o canto de um passarinho que o fez parar.

Em breve aquela avezinha se mudou, pelo que o monge a seguiu na esperança de a poder ouvir por mais um tempo, os seus aprazíveis cantos. Já um pouco afastado, perdeu de vista a ave que o encantara, facto que lhe causou muita tristeza e exclamou «Oh passarinho da minha alma, que tão belo e tão breve foi o teu cantar!».

Em seguida regressou ao convento, porém reparou que a porta já não era no mesmo sítio. Achou tudo demasiado diferente e, ao bater, até o guardião do convento lhe parecia extremamente diferente:
    - Quem bate e o que deseja, perguntou-lhe o Guardião ?
    - Responde o Frade «Um irmão e humilde frade deste convento.
    - Como, se cá não falta ninguém - respondeu o guardião
    - Falta sim ainda à nadinha saí no encalço de um passarinho, cujo o canto eu quis ouvir.

Segui-o até à orla da mata e, tão logo se calou, me tornei ao convento. Como pois não me conheceis?! É verdade também não vos conheço!

Foi o porteiro chamar o D. Abade a quem narrara, intrigado o caso. Este não se surpreendeu menos e postos a desvendar o mistério, consultando livros e registos, deles constava o desaparecimento de um frade, mas sobre o qual já haviam passado 300 anos. Nunca mais dele houvera rastos ou notícias. Foi então que por mais diligências, concluíram. Ter sido aquele para quem miraculosamente trezentos anos se passaram num momento. Assim ele compreendeu que para Deus não há diferença de tempo."



Lenda " Os Principais de Vilar de Figos"

Como lenda contamos um facto relacionado com o Castelo de Faria e que dera aos habitantes de Vilar de Figos o honroso apelido de principais. Sabe-se que em velhos registos da paróquia esse designação existe, embora se desconheça a extensão dela, isto é , se para todos os habitantes ou para descendentes apenas dos velhos "principais"

"..... O caso foi que os árabes se apossaram, em tempos remotos do castelo. Os cristãos tentavam a conquista tornada impossível pelo denodo com que os sitiados se defendiam.

Recorreu-se então ao estratagema que a luminosa ideia do povo de Vilar de Figos suscitou: pelos campos e encosta daquele lado fariam subir, de noite, um grande rebanho de cabras (Podiam ser mesmo carneiros ) com luminárias atadas aos chifres. Se bem o pensaram, melhor o fizeram.

Os árabes notaram pela noite escura, aquela aproximação de tanta gente que vinha, por certo em reforço dos sitiantes. Perante a superioridade provada do inimigo abandonaram o castelo e foram-se.

E assim, porque os moradores dessa freguesia mais contribuíram para a tomada do castelo, ficaram a ser conhecidos e nomeados por os Principais de Vilar de Figos."


Lenda do Penedo do Ladrão

Cerca de uns 3 Km de Abade de Neiva, quando a estrada atinge o ponto mais elevado da Subida, entra numa garganta formada pelo monte de S. Mamede e pela Portela do Ladrão.
Desviando nesta garganta e subindo uns metros do monte, acharemos a célebre memória do penedo assim chamado. É um grande bloco de granito com uma espécie de reentrância no cimo, assemelhando-se a uma cama, e de onde o ladrão que o baptizou vigiava a presa.

Segundo a lenda:
  "...... O malogrado gatuno da triste memória: sucumbiu ás mãos do sexo fraco. Uma mulher ia de cesto à cabeça levar o almoço ao homem, em trabalhos nas proximidades quando lhe saiu o ladrão. Ela que mal ganhara para o susto, ofereceu-lhe a única coisa que lhe ocorreu e parecia aceitável no momento - a cabaça do vinho. O ratuço não se mostrou de cerimónias e, aproveitando a oferta, começou por entornar regaladamente nas goelas sedentas o vinho da cabaça. A mulher, rápida que nem um Gamo, enterrou a faca do pão no pescoço do valente que por certo já teria enfrentado perigos maiores...."



Lenda acerca da Ponte

O povo na ingénua crendice atribuía à ponte sobre o Cávado virtudes obstétricas ou, mais claro, concessão de facilidade e segurança nos partos.

  "......Era em seu entender, castigo, praga ou má olhadura, de pessoas malfazejas, o caso de certas mulheres não vingarem capazmente os frutos do seu ventre. Estes desde que as mães fossem vitimas de tais malefícios, durariam pouco, após o nascimento. Era certo que logo nos primeiros dias de lactação, iriam para os anjinhos. Verificado o caso de uma vez para outra, resolvia-se proceder a um baptismo especial.

Em vésperas de novo parto, o homem e a mulher dirigiam-se à ponte, esperando aí até ao bater da meia-noite. Nessa hora azada, convidado o padrinho, o primeiro transeunte, procediam, servindo-se de um ramo de oliveira e de água comum, à aspersão do ventre materno. Posteriormente acreditava-se que a criança viria a nascer robusta e saudável, atingindo infalivelmente a idade proveta se passasse os 80 anos, o que aliás acontecia sempre que fizesse boas digestões durante 30 mil dias. É só fazer os cálculos....."



Lenda das Cobras Mouras

Ao penedo do Monte da Saia anda associada uma crença, que nos diz que os pré-históricos, guardaram dentro do penedo um tesouro em ouro.

Para ter acesso a este, terá que se ler o livro de S.Cipriano de "lés a lés" sem parar, se conseguir tal feito o penedo abre-se e o tesouro fica na posse do feliz contemplado.

Caso contrário o "Cobras" mouras, guardiãs do tesouro poderão por cobro à vida do dito candidato.

O aparecimento de cobras de enormes dimensões, deram ainda mais azo a esta crença.

(Segundo relatos populares)



Lenda das Cruzes de Barcelos

No ano de 1504, viviam em Barcelos dois homens que se odiavam: o sapateiro João Pires e o fidalgo D. Pedro Martins. João Pires tinha uma filha, a Luisinha a quem o fidalgo, galanteador incorrigível, perseguia constantemente com os seus galanteios.

Um dia, quando a jovem foi buscar água à fonte, D. Pedro Martins saiu-lhe ao caminho e só a pronta intervenção do sapateiro evitou o pior... Duas valentes bofetadas de João Pires ficaram marcadas no rosto do fidalgo, como se tivessem sido impressas a fogo. A chacota do povo nos tempos que se seguiram só veio acentuar ainda mais o desejo de vingança do fidalgo contra o sapateiro e a sua filha.

Num dia de grande tempestade, um barco vindo da Flandres naufragou na costa de Esposende, perto de Barcelos. Quando as mulheres acorreram à praia para recolher os despojos, Luisinha encontrou enterrado na areia um pedaço de madeira que tinha um calor estranho e exalava um exótico perfume.

Chegada a casa lançou o bocado de madeira ao fogo e algo de extraordinário aconteceu: a casa encheu-se de uma claridade estranha e no solo de terra batida ficou desenhada uma cruz luminosa.

Por mais que se escavasse a terra naquele local onde a cruz luminosa se projectava, a cova voltava a encher-se de terra. A notícia do milagre correu por toda a cidade e a casa do sapateiro passou a ser um local de peregrinação. Apenas o fidalgo, D. Pedro Martins não acreditou e acusou o sapateiro e a filha de embusteiros e bruxos, afirmando que os dois deveriam ser atirados à fogueira.

Estas acusações ganharam cada vez mais adeptos que acompanharam D. Pedro Martins até à porta do sapateiro e, quando este se preparava para o acusar injustamente invocando o nome de Deus, a mesma cruz luminosa apareceu. O fidalgo caiu humildemente de joelhos e pediu perdão a Deus, depois deu ordens para que se começasse a construir um templo em acção de graças pelo milagre.

Diz a lenda que as marcas das mãos do sapateiro desapareceram-lhe do rosto naquele mesmo momento. Foi este milagre que deu origem a uma ermida anterior à actual igreja e também à famosa romaria da Feira das Cruzes de Barcelos.

Lusitana Cultura

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Re: Lendas de Portugal

Mensagem por Lusitana Cultura em Sex Fev 06, 2015 6:53 am

Madeira
» Lenda de Machico ou do Amor Imortal
» Lenda de S.Silvestre


Lenda de Machico ou do Amor Imortal

Na corte britânica de Eduardo III, vivia um homem de sangue plebeu e alma nobre, Roberto Machim, que tinha como melhor amigo e companheiro de armas o fidalgo D. Jorge.

Roberto Machim era um homem sensível e tinha o dom da palavra, por isso, D. Jorge veio pedir-lhe para ir com ele esperar a sua jovem e bela prima Ana de Harfet, que D. Jorge queria impressionar.

Os primeiros olhares e as primeiras palavras trocadas entre Ana de Harfet e Roberto Machim foram suficientes para que surgisse um amor tão intenso que resignou sinceramente D. Jorge. Mas os pais de Ana de Harfet não aceitaram a união com um pretendente de tão baixa linhagem e ordenaram o casamento de Ana com um dos fidalgos da corte.

Roberto Machim não escondeu nem a sua cólera nem a sua intenção de lutar por Ana e foi preso por ordem do rei durante alguns dias, enquanto a cerimónia de casamento se realizava. À saída da prisão esperava-o o seu fiel amigo D. Jorge que o informou que Ana estava a morrer de amor.

Com a ajuda de D. Jorge, Ana e Roberto fugiram num barco em direcção a França, que uma brutal tempestade desviou para uma ilha paradisíaca. Ana não resistiu à febre que a tinha assolado durante a tormenta e foi enterrada na bela ilha.

Conta-se que Roberto Machim morreu em cima da campa da sua amada e nela foi enterrado pelo seu amigo. Um grande amor que através do nome de Roberto foi para sempre recordado na bonita vila de Machico, na Ilha da Madeira, pretensa ilha a que aportaram os dois apaixonados que passaram às crónicas portuguesas.



Lenda da Noite de S. Silvestre

Esta lenda assegura que há muitos, muitos anos existia no oceano Atlântico uma ilha fabulosa, a Atlântida, e nela vivia a civilização mais maravilhosa de sempre. Os seus habitantes, que Platão dizia descenderem dos amores do deus Poseidon com a mortal Clito, tornaram-se tão arrogantes que tiveram um dia a pretensão de conquistar todo o mundo, ousando mesmo o seu rei desafiar os céus.

Foi então que ouviu a voz do Deus verdadeiro dizer-lhe que nada poderia contra o poder divino. Mas o teimoso rei voltou a desafiá-lo e decidiu conquistar Atenas, mas, durante a batalha o rei da Atlântida ouviu a voz de Deus dizer-lhe que a vitória seria de Atenas para castigar a sua arrogância e ingratidão. À derrota seguiram-se terríveis tempestades, terramotos e inundações que engoliram a bela Atlântida para todo o sempre.

Passaram-se muitas centenas de anos até que um dia a Virgem Maria se debruçava dos céus sobre o oceano, sentada numa nuvem quando São Silvestre lhe veio falar. Aquela era a última noite do ano e São Silvestre achava que deveria significar algo de diferente para os homens, ou seja, marcar uma fronteira entre o passado e o futuro, dando-lhes a possibilidade de se arrependerem dos seus erros e de terem esperança numa vida melhor.

Nossa Senhora achou muito boa ideia e então confiou-lhe qual a razão porque estava a observar o mar com uma certa tristeza: lembrava-se da bela Atlântida que tinha sido afundada por Deus por causa dos erros e pecados dos seus habitantes. Enquanto falava, Nossa Senhora deixava cair lágrimas de tristeza e misericórdia porque a humanidade, apesar do castigo, não se tinha emendado.

Emocionado, São Silvestre reparou que não eram apenas lágrimas que caiam dos olhos da Senhora, eram também pérolas autênticas que caiam dos Seus olhos. Foi então que uma dessas lágrimas foi cair no local onde a extraordinária Atlântida tinha existido, nascendo a ilha da Madeira que ficou conhecida como a Pérola do Atlântico.

Dizem os antigos que durante muito tempo, na noite de S. Silvestre, quando batiam as doze badaladas surgia nos céus uma visão de luz e cores fantásticas que deixava nos ares um perfume estonteante. Com o passar dos anos essa visão desapareceu, mas o povo manteve-a nas famosas festas de fim de ano com um maravilhoso fogo-de-artifício a celebrar a Noite de S. Silvestre.




Beira Alta
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(Celorico da Beira)
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(Manteigas)
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(Celorico da Beira)


A Raiva do Alva

Corre em Pombeiro da Beira uma velha história sobre uma disputa entre três rios portugueses nascidos na serra da Estrela: O Mondego, o Alva e o Zêzere.

Nascidos da mesma mãe, viviam os três irmãos, serpenteando pelas vertentes, tranquilos e alegres, amigos e companheiros. Passavam os seus dias mirando-se cada um na limpidez das águas dos outros e jogando às escondidas nas gargantas, furnas e sorvedouros da gigantesca mãe.

Certa tarde, porém pela noitinha, envolveram-se em azeda discussão, ao que parece motivada por arrogância de valentias.

Trovejaram rivalidades e prometeram-se romper as prisões de infância, acabando por desafiar-se para uma corrida cuja meta seria o corpo enormíssimo do mar: o primeiro que lá esbarrasse seria o melhor de todos os três!

Qual deles descobriria melhor o caminho? Qual conseguiria desenvolver maior barulho e força? Qual dos três seria o primeiro a oferecer as sua doces águas às salgadas águas do mar? Era o que iria ver-se!

O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo e começou a correr brandamente para não fazer barulho. E sem levantar suspeita foi escorrendo desde as vizinhanças da Guarda, pelos territórios de Celorico, Gouveia, Manteigas, canas de Senhorim. Na Raiva, onde os primos vieram cumprimentá-lo, robusteceu-se com eles e dali partiu na direcção de Coimbra, depois de ter atravessado ofegante as duas Beiras.

O Zêzere, porém, estava alerta, e, ao mesmo tempo que o Mondego o fez, começou a mover-se oculto no seu leito de penhascos, enquanto pôde. Foi direito a Manteigas, onde perdeu de vista o irmão. Passou também perto da Guarda, desceu correndo até ao Fundão e, de repente, desnorteou, obliquando para Pedrógão Grande. Quando deu por si, no meio daquela louca correria, tinha atravessado três regiões e estava ainda em Constância. Aí, cansado e desesperado, vendo-se perdido e sem hipótese de alcançar o ma, abraçou o Tejo e ofereceu-lhe as suas águas.

O Alva, poeta sonhador, entreteve a sua noite contemplando as estrelas. Adormeceu por fim, placidamente, confiado no seu génio, e quando acordou, estremunhado, era manhã alta. Olhou em volta e viu os irmãos correndo por lonjuras a perder de vista. Que fazer agora? Que imprevidente fora! Mas… remediar-se o desastre!!! E o Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora, rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros, bradou vinganças temerosas. E quando julgou estar a dois passos do triunfo… foi esbarrar com o Mondego, que há horas já lá ia, campos de Coimbra fora, em cata da Figueira, onde lançaria no seio maternal do oceano, ganhado assim a tão discutida corrida.

O Alva esbravejou e com a sua furiosa zanga atirou-se ao irmão, a ver se o lançava fora do leito. Quando se sentiu impotente ante a serenidade majestosa do outro, espumou de raiva. E o Mondego, rindo, engoliu-o de um trago.

Ao memorável local de encontro, a foz do Alva, passaram as gentes a chamar-lhe Raiva em memória deste caso «tremebundo».



A truta de Celorico

Celorico da Beira deve ser uma povoação muito antiga, e é crível que o velho castelo reedificado por D. Dinis, tenha sido construído sobre uma localidade luso-romana situada naquela eminência. Com Trancoso e Guarda, Celorico constitui um triângulo militar de grande poder defensivo, como foi reconhecido por Wellington Massena e outros.
Em torno do castelo decorreram vários episódios emocionantes da história peninsular, desde os tempos da reconquista cristã até às invasões francesas. A sua importância militar pode depreender-se do foral e privilégios que Afonso Henriques lhe outorgou desde cedo e vários outros reis, ao longo do tempo, foram confirmando e ampliando.
Um desses episódios ficou estreitamente ligado à história mais comum da vila visto fazer parte do seu brasão de armas. Passou-se a história em 1245, quando D. Afonso III corria o reino a exigir vassalagem dos súbditos de seu irmão D. Sancho II, o Rei de Portugal que o Papa depusera e que se encontrava em Toledo banido e refugiado.
O novo Rei viera pôr cerco ao castelo cujo alcaide, Fernão Rodrigues Pacheco, mantinha fidelidade absoluta ao preito e menagem que jurara a D. Sancho. Dentro das muralhas, a fome apertava duramente, ao mesmo tempo que se assanhava a resistência do alcaide. Subitamente uma águia cortou os ares e deixou cair intramuros a presa que trazia nas garras: uma enorme truta fresa, que provavelmente apanhara no Mondego.
Uma ideia surgiu imediatamente no espírito do alcaide de Celorico: mandar aquele peixe cozinhado a D. Afonso para que visse como a vila estava bem guarnecida de víveres. Assim, mandou que arranjassem um pouco de farinha – género que escasseava na fortaleza – e que guisassem a truta.
Chamou Gomes Viegas e ao entregar-lhe o pitéu que devia levar ao inimigo, juntou-lhe uma mensagem em que dizia:
“Não culpeis a minha resistência para sustentar a voz de el-rei D. Sancho, vosso Irmão, que mercês recebidas, obrigações e homenagens me desculpam. Eu tenho determinado perseverar na defensão até expresso mandado seu; querendo insistir, podeis fazê-lo, pois a vila está guarnecida de bons cavaleiros, que tendes experimentado, e provida de mantimentos como assegura este regalo: estimarei o aceiteis, atendendo ao pouco que pode oferecer-vos um cercado.”
D. Afonso recebeu o presente que o alcaide lhe enviava por Gomes Viegas, ao qual pôs a alcunha de o Peixão e decidiu levantar o cerco por considerar não valer a pena, na verdade, perder mais tempo com uma praça tão bem guarnecida de tudo e pronta a aguentar-se por tempo indeterminado.
Quanto a Gomes Viegas, o Peixão, ficou tão orgulhoso do epíteto que, aceitando-o, o modificou para Peixoto.



Fátima

Manteigas, na Serra da Estrela, é uma vetusta povoação que já no tempo da romanização possuía uma certa importância. Na época da dominação muçulmana, teve direito a alcaide ou emir, autoridades que a tradição popularizou sob a designação de reis.
A cerca de duas léguas de Manteigas ergue-se o píncaro de Alfátema, o cabeço mais elevado da serra da Estrela, amiúde revestido de alvo manto de neve. De Alfátema falará a nossa lenda, que se passa nessa época em que o montante cristão não dava descanso ao alfange muçulmano.
Os mouros iam perdendo terreno de combate em combate, e a perseguição que os cavaleiros cristãos lhes moviam era tão rápida e implacável que se lhes revelava impossível pôr a salvo todas as riquezas que tinham acumulado ao longo dos séculos. Assim, escondiam os tesouros nos sítios que julgavam mais adequados, ocultando-os muitas vezes por artes mágicas, o que levava o povo a dizer que eles estavam guardados por mouras encantadas.
Conta a lenda que o rei mouro de Manteigas tinha uma filha, chamada Fátima, e que era formosa como uma visão magnífica do Paraíso de Alá. Os cristãos das vizinhanças empregavam todos os seus esforços para se apoderarem do território do Rei, da sua Fátima tão linda e de todas as suas jóias e bens.
Ainda quis resistir, o rei, abrigado como estava dentro do seu castelo. Ma s o número dos assaltantes era tal que lhe pareceu loucura ficar e resolveu fugir pelos carreiros escusos da serra, levando a filha e o que das riquezas ainda não pusera a salvo.
Era madrugada quando fugiram de Manteigas por uma pequena porta dissimulada nas muralhas. Andaram, andaram todo dia por entre penedos e escarpas e, ao anoitecer, Fátima morria de cansaço e não conseguia dar nem mais um passo porque os seus pés estavam em chaga. Que fazer ali no sítio mais solitário da serra? A Quem pedir socorro naquele momento terrível?
Subitamente, abre-se-lhes em frente um caminho esplêndido, todo ele florido, calçado de pedras finíssimas e iluminado, lá no fundo, por um foco de luz tão intenso que mais parecia provir de uma estrela particular. Alá fizera o milagre! A esperança renasceu em todos os corações e, num inesperado alento, entraram na senda que se lhes abrira como se nesse momento tivessem começado a caminhada. Ao fundo da estrada, a luz que haviam divisado revelou-se-lhes um palácio resplandecente, tão cheio de magnitude que se quedaram estarrecidos.
O que depois se passou ninguém o soube, mas, nos dias imediatos, os serranos viram subir e descer a encosta vários pastores totalmente desconhecidos na localidade. Duraram algum tempo aquelas idas se vindas ao Coruto de Alfátema, como chamavam àquele sítio, e um belo dia os pastores desapareceram sem deixar rasto. Os pastores desconhecidos eram mouros disfarçados e foi por indiscrição de uma deles que se soube que uma fada boa, madrinha de Fátima, a guardaria no seu palácio encantado do Coruto, sempre jovem e formosa, até ao dia em que os fiéis sectários do Corão reconquistassem Portugal.
Tão arreigada ficou esta crença no espírito dos serranos que, durante os séculos XII e XIII, as pessoas várias vezes entraram em pânico por acreditarem ver chegar, ao longe, os esquadrões mouriscos em busca da bela Fátima. E a lenda tomou ainda mais corpo no espírito crédulo dos aldeões quando, alguns anos depois de os cristãos terem tomado Manteigas, aconteceu o que vamos contar a seguir.
Um dia, uma mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar na madrugada de S. João no Coruto de Alfátema. Fatigada, sentou-se a descansar num penhasco enquanto ia comendo uma côdea de broa que trazia. O pão era duro de muitos dias e, quando a mal-aventurada ia a dizer mal da sua vida, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos. Comeu uns quantos, feliz por quebrar inesperadamente a sua pobre dieta, e, lembrando-se dos filhos, encheu deles uma cesta que levava.
E, rápida e alegre, dirigiu-se à sua choupana, antegozando a alegria das crianças ao comerem os figos. Mas, uma vez chegada a casa, ai destapar a cesta, ficou pasmada: no lugar dos figos encontrou diamantes e moedas de ouro, tudo reluzente e novo.
Estava rica! Mas a mendiga de há um minuto, conformada com o naco de pão duro, sentiu a mordedura da ambição. Não lhe bastando o que já tinha, quis tudo o que ficara no Coruto e voltou a correr ao local onde deixara os restantes figos.
Entretanto, Sol subira no horizonte e estava agora no meio de um céu sem nuvens. Passara a hora dos encantos e, dos figos, a mulher encontrou apenas o lugar. Desesperada, começou arrancar os cabelos e ia blasfemar quando uma voz suavíssima – a de Fátima, sem dúvida – caiu sobre si cantando:
Era teu tudo o que viste:
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza
Pode matar-te a ambição!



Lenda da Serra da Estrela

Era uma vez um jovem pastor que vivia numa longínqua aldeia. Por único amigo tinha um cachorrinho, que nas longas noites de solidão se deitava a seus pés sem esperar nenhum gesto, nenhuma palavra. Sofria este pastor de uma estranha inquietação: cismava alcançar uma serra enorme que via muito ao longe, ver as terras que existiriam para lá da muralha rochosa que constituía o seu horizonte desde que nascera. E muitas noites passava em claro, meditando nesse seu desejo infindável.
Certa noite em que se julgava acordado, sonhou que uma estrela descia até si e lhe segredava que o guiaria até ao objecto dos seus desejos.
Acordou o pastor mais inquieto e angustiado que nunca, e procurou no céu a verdade do que sonhara. Lá estavam todas as estrelas iguais a si mesmas, imutáveis e eternas aparentemente. Mas estava também uma que lhe pareceu diferente e mas sua.
Passavam-se os dias e o desejo do pastor aumentava, fazia doer-lhe o corpo, ardia-lhe febril na cabeça. De noite, todas, todas as noites, procurava no céu a sua estrela diferente. E em sonhos ela aparecia-lhe muitas vezes desafiando-o, desafiando-lhe sempre a vontade. Mas a vontade por vezes é tão difícil!!
Uma noite, num ímpeto, decidiu-se. Arrumou tudo o que tinha e era nada, chamou o cão e partiu. Ao passar pela aldeia o cão ladrou e os velhos souberam que ele ia partir. Abanaram a cabeça ante a loucura do que assim partia à procura da fome, do frio da morte. Mas o pastor levava consigo toda a riqueza que tinha: a fé, a vida e uma estrela.
E o pastor caminhou tantos anos que o cão envelheceu e não aguentou a caminhada. Morreu uma noite, nos caminhos, e foi enterrado à beira da estrada que fora de ambos. Só com a sua estrela, agora, o pastor continuou a caminhar, sempre com a serra adiante. E à medida que caminhava a serra ia estando sempre ali, no mesmo sítio e à mesma distância.
Passou todas as fomes e frios que os velhos lhe tinham vaticinado. Atravessou rios, galgou campos verdes e campos ressequidos, caminhou sobre rochedos escarpados, passou dentro de cidades cheias de muros e gente, mas a montanha dos seus desejos nunca a baniu do coração.
Por fim, já velho, alcançou a muralha escarpada que desde a infância o chamava. Subiu, subiu até ao mais alto da serra e ali pôde largar o desejo do seu coração, agora em paz se sem desejo.
O horizonte era tão vasto e maravilhoso, a impressão de liberdade tão avassaladora que o pastor, sem falar, gritava dentro de si um hino de louvor que mais parecia o vento uivando por entre os penhascos rochosos de silêncio. Instalou-se o velho pastor e a sua estrela ficou com ele, no céu.
O rei do mundo, porém ouviu falar naquele velho pastor e na sua estrela fantástica. Mandou emissários à serra: todas as riquezas do mundo daria ao pastor em troca da sua pequena estrela.
O pastor ouviu com atenção o que lhe mandava dizer o rei. Depois, olhou em volta. Tudo eram pedras e rochedos. Uma pequena cabana de rocha coberta de colmo era a sua morada. Uma côdea de pão negro e uma gamela de leite as suas refeições. A sua distracção a paisagem infindamente igual e diferente do mundo de lá em cima. A sua única amiga, a estrela.
Suavemente, como quem sabe o segredo das palavras e o valor de todos os bens possíveis, virou-se para os emissários do rei do mundo e rejeitou todos os tesouros da terra, escolhendo a pequenez da sua estrela.
Passaram os anos e o velho morreu. Enterraram-no debaixo de uma fraga e nessa noite, estranhamente a estrela brilhou com uma luz mais intensa. Os pastores da serra notaram essa diferença porque a reconheciam também entre as outras, pelo que o velho lhes contava em certas noites.
E em memória desta lenda, a serra passou a chamar-se, para sempre, SERRA da ESTRELA.



Lenda de Nossa Senhora do Espinheiro (Seia)

Nesses tempos da moirama, havia em terras lusitanas um cavaleiro andante, audaz e guerreiro, destemido e ousado.
Rezam as crónicas que foi famosa sua memória... Rebrilhou em mil batalhas sua espada fulgurante, sulcou rasgões de sangue nas fileiras mouriscas e, em Ourique, dominou, intrépido, cinco reis sequazes de Mafamede!...
Queimado na energia agreste do vento e do sol, cavaleiro medieval, sua alma ardente, sonhadora, caldeou-se indómita ao fragor bélico e ao luzir do aço.
Naquela manhã de Setembro, de aragem fria para as bandas da serra, D. Afonso Henriques, rei de Portugal, cavaleiro andante das terras de Viriato, apeou-se do corcel às portas de Sena.
Numerosa cavalgada o segue: homens de armas, infantes, fidalgos da côrte, os grandes todos de Portugal jovem...
O Alcaide-mor de Sena entrega, em salva de prata, as chaves pesadas do castelo heróico que Fernando Magno ergueu e foi baluarte contra os mouros. Rude e sinceramente, o Alcaide, genuíno ramo de Viriato, beija as mãos do primeiro rei de Portugal.
Ele sabia-as por serviço de Deus e da grei, banhadas em sangue, no silêncio dos arranques bravos das pugnas, realizando no chão dos lusos o milagre da sonhada independência...
A vida da Pátria preparava-a a espada de D. Afonso Henriques nessas horas imortais de altura, de sacrifício e de sangue.
Porque vinha de Guimarães às terras de Sena tão luzido acompanhamento? Era a serra dos Hermínios abundante em caça.
E o rei de Portugal, afeito às pelejas mouriscas, era certeiro nas flechas e rápido nas lançadas. A caçada prometia abundância e variedade. Eram destros os atiradores, leves os corcéis e ágeis os rafeiros...
À comitiva juntaram-se os fidalgos de Sena. A trepada dos montes escalvados e íngremes decorria em folgazã alegria e mais de um caçador emérito experimentara já pelos relvados e fraguedos a certeza da sua dextra.
A comitiva dispersa-se pelas encostas da serra, desce aos valados, embrenha-se nos pinhais, bate as urzes e escala os escuros fragões... Surge a caça abundante e nédia e alegram-se os caçadores...
O olhar dos vimaranenses perde-se na vastidão imensa, deslumbra-se com a distância e até o rei de Portugal se sente remoçado e fresco, respirando ofegante, longe das hostes inimigas transtaganas e aqui mais perto de Deus que fortalece o seu braço.
Caminha agora na planura. Segue de perto rastos de caça. Vai só, atento o olhar de lince no animal que persegue. Mas, ó céus! De repente o rei D. Afonso Henriques estaca diante dum silvado de agrestes espinheiros... O que faz ficar assim estupefacto o rei de Portugal? É uma alcateia de lobos corpulentos, boca escancarada, goela hiante, dentes sanguíneos e famintos, olhos a fuzilar, que espreitam...
Impossível fugir às feras, impossível clamar por socorro dos da comitiva, dispersos pelos pinhais e ravinas. Neste apertado transe, D. Afonso Henriques implora à Virgem dolorosa, pelas dores e martírios que sofreu tendo seu bem amado Filho nos braços, descido da Cruz, a libertação de tão iminente e cruciante perigo.
E os lobos, uivando ferozmente, retiram-se, arrastados por força misteriosa e invisível, para as penedias gigantescas da serra onde têm suas escuras cavernas.
Mais uma vez a Virgem Maria tinha protegido maternalmente com a sua poderosa mão e abrigado na orla do seu manto, o grande rei português. Para perpétua memória de facto tão insólito e miraculoso, D. Afonso Henriques mandou levantar a ermida de Nossa Senhora do Espinheiro que se ergue, donairosa, no planalto, a meio caminho entre Seia e o Sabugueiro, a aldeia mais alta de Portugal.
O cenário é rude a mil metros de altura, eriçado de penhascos, beijado pelo vento.
No Inverno, quando a neve rebrilha nos píncaros das massas ciclóplicas, ela vem docemente cobrir com diáfano manto o telhado da ermida românica da Senhora do Espinheiro.
Lá se adora a Mater Dolorosa, imagem artística e veneranda, esculpida no granito duro, desafiando no volver dos séculos, em plena serra, os furores da tempestade e o rugir da procela.




Lenda de Nossa Senhora do Espinheiro (Seia)

Nesses tempos da moirama, havia em terras lusitanas um cavaleiro andante, audaz e guerreiro, destemido e ousado.
Rezam as crónicas que foi famosa sua memória... Rebrilhou em mil batalhas sua espada fulgurante, sulcou rasgões de sangue nas fileiras mouriscas e, em Ourique, dominou, intrépido, cinco reis sequazes de Mafamede!...
Queimado na energia agreste do vento e do sol, cavaleiro medieval, sua alma ardente, sonhadora, caldeou-se indómita ao fragor bélico e ao luzir do aço.
Naquela manhã de Setembro, de aragem fria para as bandas da serra, D. Afonso Henriques, rei de Portugal, cavaleiro andante das terras de Viriato, apeou-se do corcel às portas de Sena.
Numerosa cavalgada o segue: homens de armas, infantes, fidalgos da côrte, os grandes todos de Portugal jovem...
O Alcaide-mor de Sena entrega, em salva de prata, as chaves pesadas do castelo heróico que Fernando Magno ergueu e foi baluarte contra os mouros. Rude e sinceramente, o Alcaide, genuíno ramo de Viriato, beija as mãos do primeiro rei de Portugal.
Ele sabia-as por serviço de Deus e da grei, banhadas em sangue, no silêncio dos arranques bravos das pugnas, realizando no chão dos lusos o milagre da sonhada independência...
A vida da Pátria preparava-a a espada de D. Afonso Henriques nessas horas imortais de altura, de sacrifício e de sangue.
Porque vinha de Guimarães às terras de Sena tão luzido acompanhamento? Era a serra dos Hermínios abundante em caça.
E o rei de Portugal, afeito às pelejas mouriscas, era certeiro nas flechas e rápido nas lançadas. A caçada prometia abundância e variedade. Eram destros os atiradores, leves os corcéis e ágeis os rafeiros...
À comitiva juntaram-se os fidalgos de Sena. A trepada dos montes escalvados e íngremes decorria em folgazã alegria e mais de um caçador emérito experimentara já pelos relvados e fraguedos a certeza da sua dextra.
A comitiva dispersa-se pelas encostas da serra, desce aos valados, embrenha-se nos pinhais, bate as urzes e escala os escuros fragões... Surge a caça abundante e nédia e alegram-se os caçadores...
O olhar dos vimaranenses perde-se na vastidão imensa, deslumbra-se com a distância e até o rei de Portugal se sente remoçado e fresco, respirando ofegante, longe das hostes inimigas transtaganas e aqui mais perto de Deus que fortalece o seu braço.
Caminha agora na planura. Segue de perto rastos de caça. Vai só, atento o olhar de lince no animal que persegue. Mas, ó céus! De repente o rei D. Afonso Henriques estaca diante dum silvado de agrestes espinheiros... O que faz ficar assim estupefacto o rei de Portugal? É uma alcateia de lobos corpulentos, boca escancarada, goela hiante, dentes sanguíneos e famintos, olhos a fuzilar, que espreitam...
Impossível fugir às feras, impossível clamar por socorro dos da comitiva, dispersos pelos pinhais e ravinas. Neste apertado transe, D. Afonso Henriques implora à Virgem dolorosa, pelas dores e martírios que sofreu tendo seu bem amado Filho nos braços, descido da Cruz, a libertação de tão iminente e cruciante perigo.
E os lobos, uivando ferozmente, retiram-se, arrastados por força misteriosa e invisível, para as penedias gigantescas da serra onde têm suas escuras cavernas.
Mais uma vez a Virgem Maria tinha protegido maternalmente com a sua poderosa mão e abrigado na orla do seu manto, o grande rei português. Para perpétua memória de facto tão insólito e miraculoso, D. Afonso Henriques mandou levantar a ermida de Nossa Senhora do Espinheiro que se ergue, donairosa, no planalto, a meio caminho entre Seia e o Sabugueiro, a aldeia mais alta de Portugal.
O cenário é rude a mil metros de altura, eriçado de penhascos, beijado pelo vento.
No Inverno, quando a neve rebrilha nos píncaros das massas ciclóplicas, ela vem docemente cobrir com diáfano manto o telhado da ermida românica da Senhora do Espinheiro.
Lá se adora a Mater Dolorosa, imagem artística e veneranda, esculpida no granito duro, desafiando no volver dos séculos, em plena serra, os furores da tempestade e o rugir da procela.


O Açor e o Príncipe

Ali muito perto de Celorico da Beira, na aldeia de Açores, existe uma antiga e bela igreja gótica que tem por patrona Nossa Senhora dos Açores. Lá dentro, três antigos retábulos rememoram milagres, os que vou contar e o povo guardou na primitiva ermida, que construiu, e um rei comemorou na igreja que sobre ela erigiu.
Um dia, andava um pastor a pastorear as suas vacas, quando uma delas e tresmalhou e caiu a uma lagoa. Atirou-se o homem à água, sem pensar que não sabia nadar, para tentar recuperar o animal. Aflito, em riscos de se afogar, suplicou veemente o auxílio da Virgem, e tanta fé pôs no seu pedido que Nossa Senhora apareceu-lhe, salvando-o a ele e à vaca.
Radiante e agradecido à Senhora que o salvara, correu o pastor à aldeia a contar o milagre, e o povo imediatamente acorreu ao local, com a ingenuidade e credulidade que é seu apanágio. Segundo conta a lenda, no local do salvamento miraculoso, semiescondida entre silvas, encontraram uma pequena imagem da Virgem. E, para guardarem a imagem e perpetuarem o milagre, ergueram ali uma pequena ermida.
Em pouco tempo, o local e a ermida tornaram-se ponto concorrido da região, porque muitas foram as mercês e milagres operados pela imagem devota. Tão longe foi a sua fama que chegou a terras de Espanha.
Reinava então em Espanha um rei desesperado. Casado há muito tempo, não conseguia a dádiva de um filho que o perpetuasse como homem e continuasse como rei. Assim cheio de fé, no seu palácio, implorou `Virgem daquela aldeia longínqua de Portugal a benesse de um herdeiro. E também a ele a Virgem concedeu a mercê pedida, só que – sabe-se lá por que pecado antigo – a criança nasceu aleijada e extremamente fraca.
No meio da imensa alegria pelo filho nascido, o aguilhão de dor provocado pela enfermidade da criança não fez esmorecer a fé daqueles reis. Pegando no menino recém-nascido, iniciaram uma romagem, morosa e dolorosa à ermida da Nossa Senhora das suas devoções. Iam agradecer o herdeiro e suplicar remédio para a doença daquela criança sua esperança, esperança do reino.
Durante a viagem, porém, a criança, que era tão fraca, morreu. Quiseram tirar o corpito dos braços da Rainha, mas ela, cheia de fé, continuou a sua jornada com o filho nos braços: tinha prometido a Nossa Senhora que só a ela o entregaria.
Chegada a comitiva à ermida, armou-se o acampamento real. A Rainha foi logo depor o corpo do infante no altar da Virgem, enquanto o Rei ficava dando ordens para que fizessem as exéquias.
Sucedeu, entretanto, que um Monteiro do Rei, transgredindo as ordens, soltou o seu açor. Num segundo, a bela ave sulcava os céus em liberdade, voando para longe, para o alto dos penhascos, de onde jamais voltaria sem dúvida. O Rei, furioso, ordenou que cortassem o braço do Monteiro transgressor.
Este, por sua vez, convicto da sua falta, implorou protecção à Virgem, arrependido sinceramente do acto irreflectido. Perante a sua fé simples, a Virgem não faz esperar a resposta: inverte o voo ao açor, que, descendo em círculos, vem pousar na mão que ia ser cortada, renunciando à liberdade que ansiara.
Ao mesmo tempo, dentro da ermida onde a Rainha velava o corpo do infante, uma luz desceu sobre a criança, que abrindo os olhos, sorriu à sua volta, tornando à vida, livre do defeito com que nascera. A uma grito da Rainha, o Rei, que observava o insólito facto do retorno do açor, entrou correndo na ermida, atempo de presenciar os primeiros revagidos de seu filho. Louco de alegria, o Rei ali mesmo prometeu erguer uma igreja, mais digna da miraculosa Senhora. Deste modo se construiu a igreja hoje existente, e que, em memória do duplo milagre, ficou a chamar-se de Nossa Senhora dos Açores.


Beira Baixa
» Lenda dos Mouros nos Tempos Antigos
(Casas da Ribeira – Mação)

Uma Lenda dos Mouros nos Tempos Antigos

Uma mulher desta aldeia das Casas da Ribeira foi fazer um parto a uma moura. A mulher andava no campo a apanhar lenha, quando lhe aparece um homem a pedir-lhe para ela ir assistir ao parto da mulher, que estava para ter um filho. A mulher aceitou o convite e lá foi atrás do homem. Quando chegou às penhas do Chorro, ali numa rocha abriu-se uma porta e a mulher entrou.

Era uma linda casa subterrânea debaixo da rocha. O homem agradeceu à mulher com um braçado de lenha às cavacas. A mulher ao sair dali resmungava:

- Olha agora com que me agradeceu, com um braçado de lenha!

E ela deitou a lenha fora, mas no fundo do cesto ficou uma falhasca. A mulher viu que era ouro.

Quando ela pega na falhasca, transformou-se num lindo cordão em ouro. A mulher ficou louca. Tinha uma filha para lhe dar aquele lindo cordão. Pelo caminho, ela encontrou um tronco de oliveira e pendurou o cordão no tronco, para ver a vista que fazia no pescoço da filha. Quando isso aconteceu, o malvado cordão transformou-se numa serpente, que até cortou o tronco da oliveira. E tudo isto aconteceu porque a mulher foi mal agradecida.



Esta lenda foi cedida pela Sra. Dona Cremilda Matos.




Beira Litoral
» Lenda do Milagre das Rosas - Rainha Sta Isabel

Lenda do Milagre das Rosas (Rainha Sta Isabel)

Esta é uma das mais conhecidas lendas portuguesas que enaltece a bondade da Rainha Isabel para com todos os seus súbditos, a quem levava esmolas e palavras de consolo.

Conta a história que um nobre despeitado informou o Rei Dom Dinis que a Rainha gastava demais nas obras das igrejas, doações a conventos, esmolas e outras acções de caridade, e convenceu-o a pôr fim a estes excessos.

O Rei decidiu surpreender a Rainha numa manhã em que esta se dirigia com o seu séquito às obras de Santa Clara e à distribuição habitual de esmolas, e reparou que ela procurava disfarçar o que levava no regaço.

Interrogada por Dom Dinis, a Rainha informou que ia ornamentar os altares do mosteiro ao que o Rei insistiu que tinha sido informado que a Rainha tinha desobedecido às suas proibições, levando dinheiro aos pobres.
De repente, e mais confiante Dona Isabel respondeu: "Enganais-vos, Real Senhor. O que levo no meu regaço são rosas..."

O rei, irritado, acusou-a de estar a mentir: como poderia ela ter rosas em Janeiro? Obrigou-a, então, a revelar o conteúdo do regaço.

A Rainha Dona Isabel mostrou perante os olhos espantados de todos o belíssimo ramo de rosas que guardava sob o manto.

O rei ficou sem palavras, convencido que estava perante um fenómeno sobrenatural, e acabou por pedir perdão à Rainha que prosseguiu na sua intenção de ir levar as esmolas.

A notícia do milagre correu a cidade de Coimbra e o povo proclamou Santa a Rainha Isabel de Portugal.



Ribatejo
» Lenda do Alfageme de Santarém
» Lenda de Santarém



Lenda do Alfageme de Santarém

Fernão Lopes, na sua Crónica do Condestável, deixou para a posteridade esta lenda do alfageme Fernão Vaz.

Ele era o alfageme mais reputado da região de Santarém, que, à custa de muito trabalho, tinha amealhado uma pequena fortuna, a qual, diziam as más línguas, lhe tinha permitido casar com a bela Alda Gonçalves, que em tempos tinha sido uma apaixonada de D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável.

Ora aconteceu que um dia D. Nuno Álvares Pereira apareceu à porta de Fernão Vaz e pediu-lhe para ele corrigir a espada.

Estava o alfageme a esboçar uma desculpa porque já tinha chegado ao fim do seu dia de trabalho, quando viu quem tinha na sua presença. Apresentou-se e disse-lhe que tinha casado com Alda Gonçalves, o que provocou uma certa emoção no Condestável que lhe deixou a espada para ser reparada.
Quando o alfageme chegou a casa, contou o sucedido à sua mulher que chegou a temer pela vida do seu marido, mas logo sossegou quando este lhe disse que D. Nuno tinha vindo por bem.
No dia seguinte, o alfageme entregou a espada ao Condestável mas não quis cobrar-lhe a reparação e disse-lhe que só quando D. Nuno se tornasse Conde de Ourém é que lhe pagaria pelo serviço.
Os tempos seguintes revelaram-se difíceis para o alfageme. Invejas e intrigas fizeram com que fosse preso e condenado à morte.
Inconsolável, Alda decidiu procurar D. Nuno Álvares Pereira, na altura D. Nuno já era Conde de Ourém, e pediu-lhe ajuda, embora temesse alguma despeita provocada pelo passado.
Com grande nobreza de alma, o Condestável conseguiu o perdão real para Fernão Vaz, cumprindo-se assim a profecia do alfageme de Santarém.


Lenda de Santarém

"Santarém foi uma antiga cidade lusitana antes de por ela passarem romanos, alanos, vândalos, suevos e árabes, tornando-se definitivamente cristã em 1147.

A lenda de Santarém remonta ao ano de 1215 a. C., quando reinava na Lusitânia o príncipe Gorgoris, chamado de “O Melícola”, por ter ensinado o seu povo a extrair mel dos favos das abelhas.

Um dia, Ulisses de Ítaca chegou à foz do Tejo com os seus navios onde decidiu descansar por algum tempo, antes de regressar à Grécia.
Hóspede de honra de Gorgoris, Ulisses conheceu a sua filha “Calipso” por quem se apaixonou. Do amor de Ulisses e da bela “Calipso” nasceu um filho, “Ábidis”.

Quando Gorgoris soube do sucedido perseguiu Ulisses para o castigar, mas este, avisado da fúria de Gorgoris, fugiu para Ítaca.

Para esconder a desonra de sua filha, Gorgoris mandou que pusessem Ábidis dentro de um cesto e o atirassem ao Tejo. O cesto boiou nas águas e, em vez de se perder no mar, subiu pelo rio até encalhar perto de uma gruta que servia de covil a uma loba. A loba adoptou a criança, amamentou-a e protegeu-a.

“Ábidis” tornou-se um belo rapaz que se alimentava de peixes do rio e frutos silvestres, e estava habituado a conviver com os animais.

Mas um dia, uns caçadores surpreenderam aquele rapaz selvagem, capturam-no e levaram-no à presença de “Calipso” – sua mãe. “Calipso” reconheceu em “Áibis”, através de um sinal de nascença, o seu filho roubado de seus braços.

Quando soube que o neto tinha sido encontrado, Gorgoris que não tinha herdeiro varão resolveu educá-lo como seu sucessor. “Ádibis” tornou-se assim no rei dos lusitanos, um rei justo, sábio e humano que mandou edificar uma cidade no lugar onde viveu os primeiros vinte anos de sua vida.

A essa cidade chamou “esca-ábidis, que significa manjar do príncipe Ábidis, o primeiro nome da cidade de Santarém, cujos habitantes são hoje conhecidos por escalabitanos."




Alentejo

» Lenda de Nossa Senhora da Enxara
Campo Maior
» Lenda dos amores de D. Lopo


Lenda de Nª Sª da Enxara


Reza a lenda de Nossa Senhora da Enxara que, certo dia, uma mulher estava a lavar roupa no rio, tendo por única companhia a sua filha que brincava.

A criança, depois de se ter afastado da mãe para brincar, regressou pouco depois trazendo um brinco de ouro, e afirmando que o mesmo lhe tinha sido oferecido por uma senhora muito bonita.

Rapidamente a mãe quis saber onde estava a tal senhora, e quando chegaram ao local onde a menina diz ter encontrado a senhora, viram uma imagem de Nossa Senhora sobre uma pedra redonda (que hoje se encontra no Santuário).

A população, ao ter conhecimento do sucedido, decidiu construir uma capela a meio do caminho. No entanto, todas as manhãs a imagem da Senhora desaparecia para logo ser encontrada no local original. Consciente de qual era a vontade da Senhora, a população decidiu construir um Santuário, no local onde a imagem tinha sido encontrada, para guardarem e homenagearem a imagem de Nossa Senhora da Enxara.

Diz-se, também que, quando não havia água nem chovia em Campo Maior, se realizava uma procissão, durante a qual os habitantes locais deitavam a pedra ao rio, para que Nossa Senhora fizesse chover. Quando tal acontecia, procediam então ao ritual inverso: retiravam a pedra do rio, iam colocá-la de novo na Capela e sobre ela recolocavam a imagem de Nossa Senhora.


Romaria de Nossa Senhora da Enxara
Na vasta região do Alentejo, em pleno concelho de Campo Maior e próximo da freguesia de Ouguela, está localizado o Santuário de Nossa Senhora da Enxara, famoso pelas festividades características que se realizam em cada Semana Santa. Todos os anos, na Quinta-Feira Santa, a imagem de Nossa Senhora da Enxara é transportada em solene procissão desde a Igreja da Ouguela até ao Santuário, situado a alguns quilómetros de distância, regressando ao local habitual na Segunda-feira a seguir à Páscoa.

No fim-de-semana da Páscoa (entre Sexta-Feira Santa e Segunda-Feira), o Santuário de Nossa Senhora da Enxara, ao qual está ligado uma antiga lenda, enche-se de visitantes e curiosos, mas principalmente de fiéis que celebram a sua fé através da devoção Mariana.

A Festa consiste, essencialmente, numa missa e procissão campal, tourada e outros divertimentos (carrosséis, barracas de comeres, baile, etc.).

Portalegre
Lenda dos Amores de D. Lopo


Corria o ano de 1637. Na cidade fronteiriça de Elvas, vivia um jovem fidalgo, de poucas posses, chamado Lopo de Mendonça, conhecido pela sua valentia e porte galante e ainda pela sua influência entre as mulheres. D. Lopo era, por isso, presença assídua em todas as festas das redondezas.

Numa dessas ocasiões, por alturas da feira de Zafra, aconteceu D. Lopo conhecer a mais bela das jovens casadoiras, D. Mência, daquela cidade espanhola. Logo se apaixonaram um pelo outro, passando o moço fidalgo a visitá-la com frequência.
Contudo, numa dessas saídas, voltou apreensivo. Ao ser abordado pelo seu amigo D. Álvaro para que se abrisse com ele, contou-lhe que pedira D. Mência em casamento, mas que o pai recusara o pedido, pois ela estava prometida a D. Afonso Ramirez, descendente de uma nobre e riquíssima família. A jovem tinha sido encerrada num convento enquanto preparavam a boda com o fidalgo espanhol. D. Álvaro ficou pensativo e, como não podia ver o amigo infeliz, logo ali o aconselhou a partir para Zafra para falar com D. Mência. Se ela o amasse verdadeiramente talvez concordasse em fugir com o fidalgo português.
Assim fez D. Lopo. Era já noite quando chegou ao convento. Pediu para falar com uma das noviças junto de quem D. Mência tinha encontrado algum apoio e expôs-lhe o seu plano. A noviça ficou assustada, mas lá combinou um encontro entre os jovens apaixonados.

Era uma hora da madrugada quando finalmente puderam falar. As lágrimas corriam pelo rosto de D. Mência, pois julgava não mais ver o seu amado. Estava disposta a afrontar o pai, pois a vida sem D. Lopo representava a morte. Combinaram, então, encontrar-se no dia seguinte à mesma hora. D. Mência subiria à torre; aí estaria D. Lopo à sua espera. Em baixo, um cavalo e um pagem esperariam por eles.

O dia passou e chegou o momento esperado. O jovem lá estava junto ao convento. Viu a corda pendente da torre e preparou-se para subir. De repente, viu-se rodeado por D. Árias, o pai de D. Mência, e quatro criados. O pagem contratado tinha-o traído. Era um dos criados de D.Árias. Ouviu-se um grito na torre. D. Mência tinha desmaiado. Furioso com aquela emboscada e afrontado com a bofetada que o pai da jovem lhe tinha dado, D. Lopo desembainhou a sua espada e enterrou-a no peito de D. Árias. Depois defrontou-se com dois dos criados do fidalgo espanhol, ferindo-os. Os outros dois fugiram. Aproveitando a confusão, conseguiu fugir de Zafra e atingir Sevilha, onde se alistou numa companhia que partia nesse dia para Nápoles. Queria morrer honradamente, combatendo numa qualquer batalha, pois não conseguia esquecer que assassinara o pai da sua amada.

Um ano passou. D. Lopo regressou a Zafra e procurou D. Mência. A jovem professara naquele mesmo convento de Sta. Clara. Desiludido, angustiado, perseguido ainda pelo espectro de D. Árias, D. Lopo voltou para os campos de batalha e só descansou em paz quando a morte o veio finalmente buscar.




Estremadura

» Lenda do Vale da Crima
(Martinela - Leiria)
» Lenda dos Sete Ais
Sintra


Lenda do Vale da Crima

O Vale da Crima surge-nos como curiosidade, ao fazermos o levantamento toponímico da freguesia do Arrabal.

Este local verdejante que se situa a sudoeste da Martinela, acompanhado na sua extensão por altas rochas lajeadas fazendo lembrar um mini lapedo, aparece associado às invasões francesas, segundo depoimentos colhidos junto das pessoas mais idosas da região.

As opiniões, no entanto, dividem-se quanto à origem do topónimo.

Uns defendem que tal teria acontecido durante a primeira invasão, da responsabilidade de Junot, em 1808, ao destacar para a área de Leiria o General Margaron, que positivamente arrasou a cidade com as suas peças de artilharia pesada, naquela que ficou tristemente célebre com a batalha de Leiria.
Defende-se até que para condenar os reféns, teria chegado ao ponto de criar um tribunal num local próximo do Vale da Crima, conhecido por Padrão (Pardon?). Outros há porém, que garantem estar o Vale da Crima (Val du Crime) ligado à terceira invasão francesa, chefiada em 1810 por André Massena.
Teixeira Botelho escreve em 1915 um livro a que chama "Guerra Peninsular" e vem fazer um pouco de luz sobre as ocorrências verificadas na Primavera de 1811, quando o "Filho da Vitória" retira atabalhoadamente para Santarém, depois de derrotado nas linhas de Torres Vedras. Ansioso de reforços que não chegavam, consegue contactar com o seu General, Jean Baptiste Drouet, Conde d'Erlon, a quem ordena que rume a Portugal com o seu 9° Corpo de 8 000 homens, depois de ouvido o Imperador. Este assim faz e chega a Leiria, onde fica a guardar novas ordens. A situação porém não melhora para Massena, pois as comunicações estavam deterioradas e este temia aventurar-se em operações com o exército anglo-luso.

As tropas enfraquecidas e famintas do general saqueavam e matavam num redor de quinze léguas e quando os bandos regressavam com as alimárias carregadas, eram muitas vezes chacinados por emboscadas, que lhes retiravam o produto dos saques.

Conta-se que era rara a expedição que não regava com sangue a "aquisição" de mantimentos. Sabendo-se que o percurso mais próximo entre Tomar e Leiria passa pelo Vale da Crima, estamos em crer que serão estes depoimentos os que mais se aproximaram da realidade de tal topónimo.

De uma forma ou de outra, esse local aprazível e de raro encanto, como aliás tantos outros com que a natureza dotou a freguesia do Arrabal é um convite a uma tarde de nostalgia, onde a história e o ambiente parecem acasalar, esquecidos daquela Primavera sangrenta.

Lenda enviada pelo Sr. Alfredo Brites



A Lenda dos Sete Ais

Esta é uma lenda estranha que está na origem do nome de um local do concelho de Sintra e que remonta a 1147, data em que D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros.

Destacado para ocupar o castelo de Sintra, D. Mendo de Paiva surpreendeu a princesa moura Anasir, que fugia com a sua aia Zuleima. A jovem assustada gritou um "Ai!" e quando D. Mendo mostrou intenção de não a deixar sair, outro "Ai!" lhe saiu da garganta. Zuleima, sem lhe explicar a razão, pediu-lhe para nunca mais soltar nenhum grito do género, mas ao ver aproximar-se o exército cristão a jovem soltou o terceiro "Ai!".

D. Mendo decidiu esconder a princesa e a sua aia numa casa que tinha na região e querendo levar a jovem no seu cavalo, ameaçou-a de a separar da sua aia se ela não acedesse e Anasir deixou escapar o quarto "Ai!".

Pouco depois de se instalar na casa, a princesa moura apaixonou-se por D. Mendo de Paiva, retribuindo o amor do cavaleiro cristão que em segredo a mantinha longe de todos.

Um dia, a casa começou a ser rondada por mouros e Zuleima receava que fosse o antigo noivo de Anasir, Aben-Abed, que apesar de na fuga se ter esquecido da sua noiva, voltava agora para castigar a sua traição.

Zuleima contou a D. Mendo que uma feiticeira lhe tinha dito que a princesa morreria ao pronunciar o sétimo "Ai!". Entretanto, Anasir curiosa pela preocupação da aia em relação aos seus "Ais", exprimiu o quinto e o sexto consecutivamente, desesperando a sua aia que continuou a não lhe revelar o segredo.

D. Mendo partiu para uma batalha e passados sete dias foi Aben-Abed que surpreendeu Anasir, que soltou o sétimo "Ai!", ao mesmo tempo que o punhal do mouro a feria no peito.

Enlouquecido pela dor, D. Mendo de Paiva tornou-se no mais feroz caçador de mouros do seu tempo.

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Re: Lendas de Portugal

Mensagem por Lusitana Cultura em Sex Fev 06, 2015 7:16 am

A água e as fontes no imaginário popular

A cultura tradicional portuguesa está repleta de lendas de mouras encantadas que aparecem junto de fontes e poços, alusões a nascentes no cancioneiro popular, cantigas e adivinhas. Não raras as vezes, os locais de onde a água brota límpida são transformados em locais de culto invariavelmente associados a milagres e aparições de Nossa Senhora, como sucede no Calvário, em Vila Praia de Âncora.

A toponímia atesta a importância e a sacralidade desses locais com designações como Fonte Santa, Águas Santas, Fonte de Santo António ou Fonte de S. Gualter. Outras, porém, fazem alusão às mouras que povoam o imaginário popular, quais divindades pagãs que habitavam nas suas águas e lhes atribuíam propriedades mágicas. Segundo a crença antiga, elas apareciam geralmente na noite de S. João, penteando as suas tranças com pentes de oiro fino, elementos que nos levam a acreditar tratar-se de reminiscências de antigos ritos solares ligados ao solstício do Verão. Já na mitologia grega eram as fontes, os ribeiros e as nascentes de água habitadas por ninfas aquáticas denominadas por náiades.

Desde sempre, a água assumiu uma importância primordial na vida do Homem. Mesmo quando sentiram a necessidade de recorrer a elevações de maior inacessibilidade para melhor se protegerem, os povos castrejos fixaram-se sempre junto a importantes pontos de abastecimento de água. E, construíram poços e cisternas para as armazenarem, dando início a uma engenharia que o haveria de levar mais tarde a erguer os imponentes castelos medievais. As cisternas são geralmente abastecidas a partir de galerias escavadas horizontalmente, vulgo minas de água, as quais conduzem o precioso líquido para um reservatório que é necessário construir uma vez que, sendo a água transportada pelo efeito da gravidade, o abastecimento é constante.

As características geológicas de determinadas áreas leva a que as águas atinjam maiores profundidades no subsolo, como sucedem nos maciços calcários do centro do país onde se formam verdadeiros rios subterrâneos e as fracturas existentes nos revelam magníficas grutas naturais que oferecem um espectáculo de rara beleza. É precisamente a infiltração das águas de superfície através das zonas de descontinuidade das formações calcárias que permitem a formação das estalagmites e estalactites.

No seu contacto com as formações rochosas e outros sedimentos e ainda em função da geotermia ou seja, do nível térmico adquirido de acordo com a profundidade, as águas subterrâneas adquirem características físico-químicas que lhes proporcionam inclusive propriedades curativas. Ou ainda, como sucede nos Açores, estas podem ser adquiridas em consequência da actividade magmática que se regista na crosta terrestre. Em qualquer dos casos, a constatação de tais atributos leva frequentemente o povo a atribuir poderes milagrosos a estas águas minerais, o que também ajuda a explicar alguns aspectos da religiosidade popular.

Ficou noutros tempos célebre, em Lisboa, entre outras nascentes de água, a Fonte da Água das Ratas, em Alfama, sempre palco de desacatos que levaram ao seu encerramento. Entre Tomar e Ourém, milhares de pessoas acorrem anualmente à nascente do Agroal para aí se banharem, na convicção de que a mesma tem poderes curativos para a psoríase. E, um pouco por todo o país, surgiram as fontes termais e estão identificadas centenas de nascentes com águas aconselhadas para os mais diversos males.

Em regiões onde a água escasseia, assiste-se a um especial cuidado na sua utilização incluindo para fins agrícolas. E, não raras as vezes, as fontes registam uma profunda gratidão ao benemérito que teve a bondade de a oferecer ao povo para seu uso comunitário. E, o respeito que lhe deve é de tal ordem que, diversas localidades dos concelhos de Ourém e Pombal têm vindo a recuperar antigas fontes para que possam servir aos peregrinos que por ali se dirigem a Fátima.

A água é considerada um símbolo da vida e da pureza. Ela é referida em inúmeras passagens da Bíblia a começar pelo Génesis. O seu carácter purificador está patente no ritual do baptismo através do qual se anuncia uma vida nova. Da mesma forma que o poço está associado à ideia de sabedoria e a água à sede do conhecimento. De resto, trata-se de um elemento comum a todas as religiões e culturas.

As mouras encantadas, porém, não surgiam somente junto dos poços e fontes. Frequentemente, elas habitavam grutas e necrópoles, castros e mamoas, consoante as características da região no que respeita a locais de interesse histórico. Aparecem por vezes sob a forma de serpente e, na Idade Média, transfiguraram-se em bruxas e “damas-de-pé-de-cabra”.

Pela mística de que se revestem, as bocas dos poços passaram a ser frequentemente ornamentados com uma cruz sobre o arco de ferro, da mesma forma que encima o espigueiro a proteger o cereal do qual se fará o pão.

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Re: Lendas de Portugal

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